6:20,

dizia o relógio. Só mais 10 minutos, vai.

Fecha o olho. Abre, 6:20.

Não estranha, rola pro outro lado da cama.

Acorda. Cadê o alarme?

Ainda 6:20. Como assim?

Levanta, vai para a cozinha, 6:20.

Desiste de fazer sentido, vai para o chuveiro.

Termina o banho, olha o relógio: 6:20.

Olha TODOS os relógios da casa, 6:20.

Liga para o Hora Certa: em São Paulo, 6:20. Espera, liga de novo, em São Paulo, 6:20.

Abre a janela, silêncio, não ha ninguém andando no estacionamento do préio.

Olha lá longe o relógio da igreja, 6:20.

Abre a porta do apartamento, toca nos vizinhos, ninguém atende.

O desespero bate. Na mão, um celular que brilha 6:20.

Bate com as duas mãos na porta vizinha, sem resposta.

Derruba a porta com três trancos do corpo (é mais fácil no filme que na vida).

A primeira coisa que vê na sala do vizinho e um relógio cuco: 6:20.

Revira gavetas, procura pelo relógio na cozinha, 6:20.

O desespero bate forte. Há quanto tempo está nessa busca? Ha muito tempo, há nenhum tempo?

Corre de volta para casa. E o relógio que ganhou de aniversário mês passado?

Revira o armário, acha a caixa, abre. 6:20.

BONG. O sino da igreja grita ao longe.

1 toque do sino? 6:30!

Olha pela janela para o relógio. 6:20.

BONG mais uma vez. Ainda 6:20.

É a única coisa que se move no mundo silecioso e vazio. Decide ir ate a igreja.

São 2 quadras, nas quais ninguém se encontra e cada relógio da rua diz 6:20.

O suor da corrida se mistura ao do nervoso, cheiro ácido de desespero.

Os produtos da vitrine da loja de relógios gritam em uníssono: 6:20!

Na porta da igreja, o BONG! é ensurdecedor.

Ninguém no altar, ou nos bancos. Começa a correr pelas escadas até a torre do sino.

O sino toca, cada vez mais alto: BONG, BONG, BONG.

Coloca as mãos nos ouvidos enquanto corre os degraus. Posição ridícula, mas nada o pode parar.

Há de ter alguém lá em cima.

Chega. Ninguém no sino.

Que continua berrando, com ainda mais intensidade: BONG, BONG, BONG.

Nem as mãos nos ouvidos bloqueiam o som ensurdecedor.

Deita junto ao sino, pensa “é assim que eu morro?”.

Fecha os olhos.

Abre os olhos, vê o celular ao lado da cama: 6:30.

Antes de levantar, muda o toque do alarme de “sino” para “buzina”.

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One thought on “6:20,

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