O #diamundialsemcarro e os falsos confortos

Hoje é o Dia Mundial Sem Carro. Como o nome já diz, é um dia dedicado não usar aquela coisa pela qual você pagou  R$ 20-30 mil, paga R$ 1500-2000 de seguro + R$800 – 1500 de IPVA. Para deixar na garagem. E claro, para desfrutar do maravilhoso sistema de tranporte público da cidade.

E para fazer uma diferença? Não, para pagar uma de moderno e descolado, “eco consciente”.

A internet trouxe à baila o ativismo de sofá (couch activism), que na sua forma literal é você colaborar com causas sem ter que fazer um esforço real. Ou seja, queremos seu dinheiro, já que você não se engaja mesmo. Clica nesse banner, uma riança na África ganha um prato de comida; nada poderia ser mais simples, e encher tanto o coração de alguém que não tem interesse em engajamento profundo.

O Dia Mundial sem Carro exige da pessoa um pouco mais de movimento, mas parte do mesmo princípio: pede para você deixar seu carro em casa um único dia. DO ANO. E lá vai o povo deixar o carro em casa e contar no Twitter, pois afinal não é legal ajudar sem se exibir um pouco.

Aí que mora o problema: vivemos em uma época que é lindo falar desse militantismo pró-causas edificantes, mas ninguém quer se engajar muito mais do que quer se mostrar como “consciente”.

Então temos um dia do ano que o cara deixa o carro na garagem e 364 em que ele anda sem regular o motor.

Sem se informar e se mobilizar para implantação de tecnologias limpas.

Sem mobilizar uma carona solidária com colegas de trabalho.

Ou seja, sem nada que dê muito trabalho. No máximo um twitbon e uma hashtag.

A internet é um agente facilitador, sem dúvida, fundamental para agregar pessoas em torno de algo, sejam LOLCats sejam causas contra o câncer. Porém, iniciativas como o Dia Mundial sem carro atendem apenas àquela parcela da população que acha que causa é algo que não pode dar muito trabalho e gente que busca temas “trending” para contribuir e aparecer, que acha mais importante se sentir parte de uma comunidade que efetivamente contribuir.

Aí, um dos leitores que me odeia (tem vários aqui e aqui) vai dizer “tá bom bonzão, e o que VOCÊ faz?”.

Eu deixo meu carro na garagem uma vez por semana. A causa chama-se “rodízio municipal”. E nem por isso saio pela internet como se fosse o Capitão Planeta.

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One thought on “O #diamundialsemcarro e os falsos confortos

  1. Concordo com o argumento do post, é bem fácil dar RT e ficar bem na fita.
    Eu uso a bike sistematicamente, todos os dias. Acho até que algo mais egoísta do que altruísta, mas acho legal fazer esse dia, nem que seja para gerar discussão a respeito. Existe gente que ainda acha que não existe saída, e sempre existem alternativas. Se o cara der uma acordadinha, já serviu.

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