A maldição do craque

Estou lendo o mais novo livro do Seth Godin, chamado Linchpin, e um dos conceitos que ele pretende dinamitar é aquele que diz que trabalhar duro vale mais que trabalhar de maneira  inteligente. Ou seja, a qualidade da dedicação vale mais que as horas dedicadas, o “se matar de trabalhar”.

É um conceito muito bem detalhado e expandido pelo autor, mas que incorre em um certo risco. O principal risco é a “cultura do craque”, que se resume a uma frase emprestada do futebol: “o craque pode tudo”.

Pode?

Vou partir do futebol apenas para ilustrar o ponto, porque este blog não é esportivo.

Recentemente, temos visto nessa área exemplos de grandes atletas que voltaram para o Brasil saídos de grandes times europeus, cada um com sua história, e percebemos uma atitude até meio indolente da maioria deles. O Adriano não treina, dá escândalo na rua e o Flamengo não se mexe (de outra época, mas o Romário é um clássico caso de “não treina e ninguém pode reclamar”). O Ronaldo fenômeno está gordo ao extremo (para um atleta) e o mantra do povo é “deixa ele, que na hora da decisão ele aparece”.

Ninguém precisa me convencer de que estamos a caminho – ainda existem focos de resistência – da era do talento. A qualidade da sua produção já vale mais que o suor que você dedica, mas a pressa de abraçar o talento e se livrar da repressão de ser o carregador de pedra cria sérias distorções, em todos os campos. É fina a linha que separa o indivíduo que tem liberdade de fazer horários e cria constantemente do cara que tem uma boa idéia e vive da fama dela, ou que deixa uma equipe trabalhando e aparece na reta final do projeto.

Um time, ou de futebol ou profissional ou familiar, vive do talento (que na maioria dos casos é o líder), mas vive de uma série de componentes que – sim – possuem talento em menor escala, e dão o sangue na execução, mas também na elaboração.

Uma equipe corporativa onde o “craque” só aparece na hora da partida é refém dele: se ele não executa bem, o resto do time não sabe o que fazer, perde a referência. Ou pior: engata aquela atitude de “você é o craque, resolve você”. E abrem mão de usar o talento para reverterem à rotina de cumprir horários e fazer o que dizem.

Então, temos aí uma outra faceta do talento, que é a habilidade que este indivíduo tem de compartilhar o processo com a equipe. Da vivência com o time. De estar lá quando todo mundo está se preparando, de ser uma parte que adiciona seu talento ao dos demais, e que compartilha do esforço coletivo. Na hora da execução, o talento do líder e dos componentes é um só, imbatível mesmo quando o ele não consegue executar.

Imagine se o Steve Jobs somente fizesse keynotes para apresentar os produtos Apple e não se envolvesse com concepção, criação, design, engenharia, programação como se envolve? Será que terímos essa linha de produtos inovadores que temos hoje?

E não é por falta de gente competente na Apple: o lugar é um poço de talentos. Mas o craque do time lá treina e joga, e isso faz toda a diferença.

O craque não se coloca acima da equipe; ele se coloca ao lado, apimentando a mistura, servindo de refeerência para que os outros combinem esforço com a capacidade que tem para atingir um resultado superior. E isso só é possível porque ele veste o colete e vai dar volta no campo com o resto do elenco.

Não fosse assim, provavelmente estaríamos usando um MP3 player, mas não um iPod.

E se o seu time trata o talento como algué que só precisa aparecer na hora da decisão, o que você vai fazer quando todos os outros times tiverem um talento como o do seu? E pior: o que você vai fazer quando esses talentos dos outros time aparecerem em todos os treinos e amistosos antes da decisão?

Talento não é desculpa para falta de dedicação. Talento é um compromisso eterno com a superação.

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