Notas sobre bytes

Nos últimos dias, por conta de uma oportunidade que apareceu, tenho pensado muito em música e o papel dela na sociedade. A gente fala muito de mídias sociais, da maior interação que a internet trouxe entre as pessoas e esquece que a música é a maior mídia social que existe.

Há quem questione e vá dizer que música não é meio, é mensagem. Eu acho que é meio E mensagem. O lado mensagem da música é óbvio: o conteúdo dela transmite idéias, pensamentos e sensações a quem ouve. Mas por que ela é meio, mídia?

As pessoas se conectam por ela. Relacionamentos, laços entre as pessoas são construídos em torno de artistas, discos e músicas. Quando a Mariazinha liga para a rádio para pedir perdão para o Joãozinho, ela dedica uma música para ele que tem tudo a ver com eles ou com a situação deles. É uma mensagem sendo passada, mas também é um meio.

Grupos de pessoas se unem em torno de música. Gosto musical determina a qualidade de muito relacionamento por aí. música rodeia todas as interações sociais. Dá uma passada no seu MSN, veja quantos amigos colocam letras de música como mensagem de status. Vai no Twitter e veja quantos citam letras de música, sem contar serviços assocaidos, como o blip.fm, que combina Twitter e música. Veja quantos amigos seus escolhem com absurdo cuidado o ringtone do celular. Porque música é identidade, transmite mais sobre nós do que podemos falar.

Mídia social é tratado como novidade hoje por causa da internet, mas a música sempre foi o poder mais forte de mobilização social, em todos os níveis e propósitos, que a humanidade já teve. Quando uma tribo canta antes de ir para uma batalha ou para a caça, ela está reforçando sua identidade e sua unidade por meio da música. Uma música do Metallica é tortura no Oriente Médio e diversão para 68 mil pessoas no Morumbi.

De novo: meio e mensagem. Isso é o que a música causa nas pessoas, individualmente e em grupos.

A mudança da música nos últimos tempos foi definida pela internet: as pessoas são cada vez mais fãs de músicas e artistas, e menos de discos. O meio físico onde se grava as músicas perde lugar para uma relação mais íntima da pessoa com aquele bit de informação que é uma canção solitária.

Não é grande novidade: o Brasil vende disco de trilha sonora de novela como se fosse água no deserto, que nada mais são que coleções de músicas distintas. EUA e Europa sempre tiveram a cultura do single, em caminho semelhante.

A lanterna e o laser

Porém, a internet foereceu escolha para as pessoas. Cada uma define quela vai ser o seu single. Qual vai ser o seu conjunto de canções da coletânea. A relação tornou-se mais íntima, com um leque maior de opções, que permitem que a pessoa se identifique melhor com melodia e letra, e saia de um grupo limitado de artistas de rádio para um mundo infinito de canções tageadas e catalogadas em buscas.

Não à toa, redes sociais que se mobilizam em torno de música são algumas das mais bem sucedidas desses tempos modernos. Last.fm, MySpace, Spotify e nacionais como o Sonora estão achando seu caminho porque identificaram que – mais que a interação de pensamentos e mensagens curtas de 140 caracteres – a música é uma cola poderosa de pessoas.

Nos tempos de internet das coisas, onde é cada vez mais comum idéias terem perfis tangíveis que podem ser seguidos em um Facebook da vida, é o natural que qualquer serviço que queira reunir pessoas em torno de música que estimulem este comportamento de serem mais que fãs do artista, mas de serem fãs de átomos desse artista.

Ser fã de um artista, de seguí-lo ardorosamente e simplesmente adorar 100% do que ele produz está com os dias contados. As opções são estupidamente variadas e as possibilidades também, para se gastar toda a energia adorando os bons e maus momentos do artista. Afinal, sempre fomos fãs de música antes de sermos fãs de artistas.

O caminho então para quem quer estimular estas relações é pensar em canções como entidades de vida própria, que atraem seu grupo de pessoas, de qualquer tamanho; em tempos de cauda longa, até mesmo o pior momento musical do artista menos famoso tem seus fãs, e estimular as relações em torno destas.

Sabendo que tipo de música movem as pessoas, e quais elementos destas músicas são mais quentes para elas, é possível criar um banco de dados que antecipa tendências de forma mais eficaz que um genérico “sou fã da Beyoncé”, e permite maior foco na oferta ao usuário que quer ouvir o que gosta mas está louco para conhecer mais, para novas experiências geradas por novas canções. Enquanto os catálogos tem que ser abrangentes como uma lanterna, a relação deve ser precisa como um laser.

Música existia antes da internet e vai existir se a internet acabar. Ela, independente do que venha no meio do caminho, ainda vai ser o fator comum entre todos nós.

Crédito da imagem: Elitza Petrova

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