Avatar

Como não podia deixar de ser, fui ao Cinemark do Market Place assistir Avatar. Defintivamente, o James Cameron é a personificação do ditado “por fora bela viola, por dentro pão bolorento”. Não fiquei com uma boa impressão do filme, apesar de pontos que merecem aplausos.

Vou separar minhas impressões em prós e contras, para fazer a distinção mais clara.

Prós

  • O uso de efeitos 3D é suave, desce macio e reanima. Avatar não é aqueles filmes que adora jogar na sua cara que eles existem a cada 5 minutos, com personagens agindo como tontos em movimentos forçados em direção da câmera. Aqui, o 3D é usado para dar profundidade, aumentando a sensação de textura ao cenário e às ações. O recorte dos personagens em relação ao cenário é completamente perfeito. Matérias da Time e da Wired do mês passado (aqui, aqui e aqui) dão um detalhe maior sobre como esse desenvolvimento aconteceu, o que envolveu uma boa dose de coragem do James Cameron, que definitivamente compensou.
  • O design é fenomenal. Todo o cenário é cheio de detalhes, enriquecidos pelo 3D, as cores são absurdamente lindas sem parecer exageradas. Em alguns momentos há um exagero na dose de detalhes da natureza, em que o filme quase lembra aqueles vídeos de demonstração de home theater em loja do shopping, mas nada que desagrade demais.
  • O cuidado com a construção do universo onde o filme se situa: foram anos de trabalho do James Cameron detalhando fauna, flora e acessórios de Pandora, criando uma realidade sólida. O trabalho foi tão complexo que parece que vai render uma enciclopédia relacionada ao universo do filme. Esse é um passo à frente de muitos filmes do gênero, incluindo o Guerra nas Estrelas, que desenvolveu e expandiu o universo apenas depois que o filme deu certo.

Contras

  • O excesso de clichês políticos atuais no filme. Colocar assuntos políticos é um recurso interessante em ficção científica para aproximar o público, mas nesse caso há um exagero absurdo. Além de tudo, o motivo político é muito específico, mais especificamente entre EUA e Iraque, carregando na mensagem moralizadora demais (a ponto de ficar boba e rasa) e tirando o foco de muita coisa importante do filme. O James Cameron deveria aprender com um Isaac Asimov como inserir política, em um contexto mais amplo e de forma mais universal e atemporal, em uma obra (vide a Trilogia da Fundação). A lição aqui é: nem todo filme é palanque.
  • Os personagens são absurdamente bidimensionais (o que não deixa de ser irônico em um filme 3D).
    Antes do filme, passou o triler parqa as novas cópias 3D de Toy Story 1 e 2 que vão reeestrear no cinema, e uma das gags era com o dinossauro Rex, que entrava no cenário e dizia “eu também sou 3D!!”, e os outros personagens respondiam dizendo que ele ainda não havia sido animado em 3D, enquanto ele virava de frente para a câmera e ficava fino, como uma figura em 2D. Os personagens de Avatar deveriam se perguntar quando alguém iria passá-los para 3D, porque definitivamente esqueceram deles.
    Em Avatar, não há espaço para desenvolvimento das personalidades, inimigos viram amigos muito rápido, muita gente morre sem deixar saudade e todos os relacionamentos são muito frios, apesar de carregados no diálogo. É o erro de apresentar muitos personagens novos ao mesmo tempo e fazê-los interagir e construir relações em 2 horas e meia.
  • Há uma certa ingenuidade na maneira como o Cameron aplica o mito do herói. Se a idéia era ser maior que o George Lucas ( de novo, vide matéria da Wired), ele já falhou na concepção da história. Tudo é muito clichê, muito previsível e muito corrido. Talvez fosse mais seguro – para usar um truque do Lucas – fazer um filme mais aberto, abrindo possibilidade para um segundo filme e investindo mais em desenvolvimento. Para que gastar anos construindo uma realidade tão detalhada se vc a desperdiça com clichês e resoluções corridas?
  • Senti uma preocupação absurda em tornar o filme digerível para um público mais jovem. O James Cameron fez a mesma burrada que o Lucas fez com o Episódio 1 do Guerra nas Estrelas: eliminou violência gráfica, tirou a dramaticidade de cenas que exigiam mais visceralidade e acabou tornando as batalhas um tanto quanto inssossas. Essa preocupação com a classificação do filme ajudou em muito a tornar os personagens mais planos e sem graça.

E no final…

É um filme do James Cameron: desenvolvimento mediocre de história e personagens, mas com avanços técnicos extraordinários. Há quem faça pouco da parte técnica, que acha que isso é coisa que é superada rápido, mas eu não: acho fundamental ser ousado como o Cameron foi nessa área com este filme. O que e construiu e como ele construiu a parte técnica de Avatar vai ser um mapa para avanços ainda mais significativos, especialmente em CGI.

Só que um filme bom não se faz somente com isso, mas sim com boa história, mensagens de interpretação aberta, personagens com profundidade e desenvolvimento, ritmo. Avatar não tem nada disso.

Enfim, leva uma nota 6. Se tiver continuação, é bom que o Cameron contrate um roteirista.

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