O humor nos tempos do 2.0

Recentemente li reportagem na Wired sobre o Tim & Eric’s Awesome Show, Great Job!, programa da faixa Adult Swin do Cartoon Network. Ao ler a descrição sobre uma forma de humor anárquica, com feeling de baixo orçamento e usando o meio como piada, resolvi dar uma chance, e aproveitei o fim de semana prolongado para tanto.

Fiz o download da primeira temporada no domingo, e vi tudo de uma vez só. O Awesome Show é um respiro para nós aqui, que só temos o Hermes & Renato como um humor realmente próximo do público, algo atingível, com cara de YouTube e conteúdo realmente contestador.

O Alexandre Matias recentemente anda cantando loas ao H&R no Trabalho Sujo, e cheguei até a publicar aqui um quote dele que faço questão de repetir, tamanha a perfeição:

Hermes e Renato é quase amador, tosco, malfeito. Eis a graça. Todo mundo conhece pelo menos um cara que é assim, que curte esse tipo de humor, que faz vídeos toscos com os amigos e bota no YouTube. E acredito que esse seja o principal motivo da importância do Hermes e Renato. É o elemento 2.0 misturado com o reality show, o “yes we can” da choldra. Fora isso eles ainda materializam piadas e brincadeiras que não têm registro oficial, piadas de fundo de sala de aula e de ônibus que são pura história oral, fadada ao esquecimento não fosse isso que chamamos de arte. Eis o papel dos caras, é mais ou menos o motivo do sucesso do Mamonas Assassinas, mas com piadas legais.

Acredito que em pouquíssimo tempo teremos uma nova geração de humoristas, diretamente influenciadas por esses caras, uma geração que vai mostrar que essa safra de stand-up sem graça que está hoje no CQC é só isso – uma geração sem graça. Que venham os bárbaros!

Aproveitando o Awesome Show, vou estender um pouco o comentário que comecei aqui, quando publiquei este quote do Alexandre a primeira vez.

Falando especificamente do Awesome Show, a inspiração é claramente a programação das TVs públicas dali, que ofereciam acesso a todos para fazer programas de conteúdo local, o que gerava diversos shows feitos de maneira e com conteúdo mabembe (imagine 350 canais comunitários na TV).

O Awesome Show busca replicar isso, de maneira extrapolada, abrindo uma ferida bem interessante e bem disfarçada no orgulho americano e nos seus subprodutos. Tudo que eles fazem tem cara de viral, e um leve toque de humor inglês, recheado de nonsense e com temas que cruzam episódios (o das crianças palhaço para festas é recorrente em 3 episódios diferentes, em contextos diversos).

Já o H&R busca a inspiração no YouTube, por saber que é lá que seu público está. O formato é tosco para se identificar com tudo aquilo que o target deles faz em casa pra subir no site de videos. Esse é um dos motrivos pelos quais o pessoal do stand up não consegue atingir a mesma eficiência: o humor CQC é top down, em um formato onde o controle é 100% do humorista e onde a referência são eles mesmos; da matriz Seinfeld aos subprodutos, todos são iguais, com a mesma condescendência em relação ao público. Eles não levam o formato ao limite, transformam o humor em algo pra se ver com os olhos e não com o estômago.

Porém, a real importância do H&R está na mensagem: você é levado de volta a uma época onde fazer humor envolvia não consultar o manual do politicamente correto, onde todos foram, são ou serão vítimas de piadas, independente de falsos moralismos ou médias com personalidades. O mesmo se vê no Awesome Show, cada um dentro do estilo de seu país: o americano é mais sutil, bota o espectador para pensar sem ser menos destrutivo, enquanto o Brasil tem a tradição de ir direto no estômago, sem voltas intelectuais.

A grande diferença é que o Brasil perdeu essa característica, o americano não. A questão é política: nos EUA, existem tantas emissoras, com tanta liberdade e diferença de atuação entre elas, que não existem os laços de rabo preso que se constroem aqui no Brasil. Quando a TV Pirata – de longe o mais anárquico que se viu no Brasil em termos de crítca de costumes e ao poder – chegou no seu ápice, e os Trapalhões passavam como um rolo compressor no politicamente correto, o humor tupiniquim regrediu. Ficou inofensivo.

Ficou inofensivo a ponto de chamarmos o CQC de “contestador”. Na boa, o dia que fazer gracinha com político na porta do Congresso, comandar protesto de sofá pelo Twitter e livrinho de humor sobre o Lula for “contestador” eu quebro toda minha coleção de DVDs do Monty Python.

Vamos combinar uma coisa: o CQC é inofensivo. É mauricinho. O Pânico – e falo isso sério – também é. Só que é aquele mauricinho que adora pagar de esculhambado. Só que se você despir o formato aparentemente anárquico do programa, você tem um Video Show com palavrões. Ser processado por artista é mídia expontânea, mas é preguiça de pensar também.

O H&R destrói todo mundo de maneira muito mais devastadora sem ser incomodado por que? Por trabalhar a mensagem de uma maneira tal que descreve um monte de artista, político, músico, sem ao menos citar um nome, o que não deixa de ser genial. Sinal de que pensam lá.

E ainda assim todo mundo que avalia o programa da MTV o faz com certo desprezo por causa do formato. Afinal, todo mundo sabe que engraçado é vestir terno, óculos escuros e fazer piada de salão na porta do Congresso, certo?

Hermes & Renato e o Awesome Show são dois grandes exemplos de humor no mundo 2.0: sem rabo preso a ninguém, com formato facilmente replicável e com alto poder de viralização. E melhor de tudo: trazem o público ao nível deles.

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