O Fim da Eternidade

Recentemente, comprei edição nacional de O Fim da Eternidade, talvez o melhor livro escrito pelo Isaac Asimov (o que o credencia como um dos melhores livros escritos na humanidade, ponto). A primeira vez que o li foi há quase 10 anos atrás, e atualizei minha cópia comprando a nova versão da Editora Aleph.

Incrível como a obra continua tocante, independente de quantas vezes ou quando você lê: poucos livros combinam ciência, amor, sacrifício, ética, moral e outros assuntos tão delicados em um único volume, com tamanha precisão.

Andrew Harlan é um Eterno, membro de uma organização que controla alterações na história (Mudanças de Realidade), em todos os séculos, para garantir sempre o melhor caminho possível para a humanidade. Andrew é um técnico, com base no século 482, e ao visitar outro século conhece Noÿs Lambent, que vai fazer Andrew rever tudo o que já fez como um Eterno.

Com todo o caminho percorrido pelos dois personagens ao longo do livro, e pelos personagens que o cercam, você se vê questionando tudo que parecia certo no começo do livro: é justo mudar a história para o bem da humanidade, protegendo-a de males futuros? Quem deve decidir o que é melhor para a humanidade? Até que ponto é correto sacrificar algumas vidas em nome de um “bem maior”? E quais vidas?

Todas essas perguntas vão sendo apresentadas, impedindo o leitor de ficar com a segurança de uma resposta certa, até mesmo depois do fim do livro. E este sempre foi um dos grandes prós do Asimov: não importa se é ciência ou ética, ele sempre apresenta a questão de forma ampla, sem julgamentos de certo ou errado, deixando as grandes questões em aberto para que cada um decida se os caminhos percorridos pelos personagens são corretos ou não.

(Atenção: a partir deste ponto vou jogar alguns spoilers aqui. Portanto, se você não leu o livro, vá atrás e leia, depois volte aqui. Se não se importar ou se já leu o livro, siga em frente.)

O núcleo da história para mim é a divergência que se cria na vida de Andrew com a aparição de Noÿs. De um lado, ele tem muito claro que todas as Mudanças de Realidade são absolutamente necessárias, mesmo que se recortem ou modifiquem vidas e fatos inteiros da história. O bem maior dita a necessidade, e não há conflito com isso.

Porém, ao conhecer e intensificar o contato com Noÿs, ele se vê querendo protegê-la das mudanças a serem operadas no século dela. Sobre a possibilidade de ter uma nova Noÿs ao final da Mudança de Realidade e se esta se apaixonaria por ele de novo ou não, Andrew reflete, no que para mim resume toda a história:

Ele não amava simplesmente uma garota. (…) Amava um complexo de fatores: suas roupas, seu andar, seu jeito de falar, seus gestos e expressões. Um quarto de século de vida experiência se passou, numa determinada Realidade, para que tudo aquilo fosse forjado. Não era a sua Noÿs na realidade anterior de um fisioano antes. Não seria a sua Noÿs na próxima realidade.

A nova Noÿs poderia ser, possivelmente, melhor em certos aspectos, mas de uma coisa ele tinha certeza: queria aquela Noÿs ali, aquela que ele via naquele momento, a Noÿs desta Realidade. Se ela tinha defeitos, queria os defeitos também.

Obviamente, um entra em conflito com o outro: se amava Noÿs pelo que ela era, o bom e o ruim, porque era tão certo mudar o rumo da humanidade, decidindo o que é melhor e o que deve ser alterado ou removido?

A questão bate fundo em quem lê, pois toca no que é amar algo: amamos porque ignoramos ou defeitos, ou amamos inclusive por causa dos defeitos? A discussão toma a segunda metade do livro, intensificada com o surgimento da questão BS Cooper / Vikkor Mallansohn.

Este acontecimento no livro acelera seu final, pois coloca em Andrew uma reponsabilidade que lhe exige pressa para decidir o que quer mais, o que valoriza mais, além de lhe colocar em posição de decidir definitivamente entre o amor e a Eternidade e as Realidades sempre corrigidas.

Por mais que haja uma forte carga de física téorica (e há, extremamente bem embasada) na obra, o pano de fundo são relações humanas. Depois de você se sentir confortável e até favorável com a idéia dos Eternos mudarem a Realidade, você começa, a partir de emoções humanas, a questionar se tudo isso é realmente válido. O debate lógica x emoção domina todo o texto, e você começa a ver todos os personagens – até mesmo os que pareciam mais resistentes à ação das emoções – em outra luz.

Este é o grande mérito da obra: fornecer subsídios para que todos debatam o que deve ditar as grandes decisões da nosssa vida. Um livro essencial para cada um se entender, sem que haja uma linha sequer que pareça com auto-ajuda.

Antes de terminar, vale destacar o trabalho impecável da Aleph, da adaptação / tradução da obra até o projeto gráfico. Grande iniciativa de uma editora que está se estabelecendo fortemente no nicho de ficção científica no Brasil. Recomendo fortemente a compra desta edição.

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