Blecaute

Pedro percebe a escuridão na avenida. Ela desperta nele coisas que a luz encerrava em sua cabeça. Pedro pensa se é agora que deixará de ser a fachada de um bom homem e assumir sua doença, libertando-a sobre alguma mulher que lhe parecer mais atraente. Sente a adrenalina de um viciado ao ver uma agulha pingando.

Pedro vê Marta na porta do prédio, receosa de dar um passo à frente, presa à bolsa, como se esta fosse a sua guarda no momento em que tudo se apagou. Quer ir embora, mas o olhar mostra o medo do escuro, da rua repleta de pessoas perdidas. Teme Pedro sem nem mesmo o conhecer. Hesita.

Pedro aguarda o momento. Saboreia o medo de Marta, morde os lábios em antecipação. Até prefere ver a moça titubeando na porta do prédio; a antecipação do momento torna tudo mais excitante.

Duas quadras e 15 andares para cima, Marco olha para o computador. Demora uns 5 minutos para acreditar que tudo se apagou. Passou o dia inteiro e planejava passar boa parte da noite vendo a madrugada no monitor de 15 polegadas, acompanhado de relatórios e sonhos de carreira.

Mas perdeu tudo. O desespero aumenta ao perceber que salvou seu arquivo pela última vez há mais de uma hora. Uma hora que ele tem que recuar, tirando o atraso que o blecaute vai causar.

Sente angústia ao perder sua forma de viver. Para por longos segundos para perceber que sua vida não é mais que esta sala, esta carreira, esta entrega. Sente-se vazio e desesperado, com vontade de quebrar tudo. Ou até mesmo de se quebrar. Não tem muito pelo que continuar: o que era ele sem o trabalho?

Nada.

Caminha para a janela.

Mais 4 andares acima, Lúcio passa pela mesma angústia de Marco. Olha para a tela do computador e sente o desespero crescer, por ter perdido informações importantes para seu trabalho. Gasta alguns minutos a menos que Marco para chegar à mesma conclusão: havia se reduzido ao seu trabalho, se tornado tão pequeno que havia virado um arquivo, um encadeado de números que não sente.

Lúcio também percebe o vazio que sua vida se tornara. Mas, no meio da turbulência, percebe que seu fim pode – não, deve! – ser diferente. Marta saíra há alguns minutos, indo se arriscar na avenida. Lúcio, friamente, dispensou a colega de trabalho, que sempre quis ser mais que colega dele, sempre trombando na indiferença do executivo.

Desesperado pela perspectiva de perder a vida para números, percentagens, cifras e outros do gênero, Lúcio agarra o paletó e corre para a rua. Pensando se ainda estava em tempo de alcançar Marta.

Na porta do prédio, vê Marta do outro lado da rua. Corre a tempo de alcançá-la. Ainda hesitante, passa a mão pelo ombro dela e começa a viver. Marta esquece o medo, esquece Pedro, que nunca vai chegar a conhecer.

Pedro, que sentia suas batidas fortes no peito ao ver Marta finalmente atravessar a rua rumo à bem-vinda escuridão, para na porta do prédio. Vê Lúcio junto dela. Castiga-se por hesitar tanto colocando a mão no bolso e beliscando a perna com força, em um tique doente.

Pedro pensa no que fazer. O animal quer sair, não tem mais como não fazê-lo. Passa os olhos ao redor da rua procurando outra mulher; dificilmente será tão excitante quanto Marta e seu delicioso medo , mas agora não esperaria tanto.

Ao dar o primeiro passo atrás da próxima mulher que vê entrando na escuridão, sente um golpe na cabeça, de um sapato. Mal tem tempo de olhar para cima antes de ser atingido por Marco, que jogou pela janela do 15º andar a vida que não tinha, levando junto a de Pedro, que não a merecia.

A luz voltou duas horas depois. E a vida continuou.

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