Na contramão do mundo

Censura+InternetSou um leitor compulsivo. Não existe assunto que me recuse a ler, conhecer, aprender e debater. Todo dia, leio vários textos de vários lugares, e – abençoado seja o RSS – principalmente de diversos sites / blogs / twitters / afins.

E não duvido que com vocês seja diferente. Como não sou nenhuma celebridade, o fato de você estar lendo este post agora significa que você lê muitos sites e blogs na internet, todo dia. E você tem sua relação pessoal com o conteúdo, assim como eu.

A navegação, apesar de parecer livre, ainda encontra focos de resistência. E um deles pode ser onde você passa 8-10 horas do seu dia: o escritório.

Lembra como era difícil antigamente (e quando digo “antigamente”, me refiro a meros 10 anos atrás) a gente aprender algo? Deslocamentos, buscas físicas (ficha de biblioteca, catálogos, estantes, etc.). E para debater algo com um grupo de pessoas? Só na mesa de bar. E tome limitações de ordem física / espacial.

O mundo hoje é informação, a gente vive de informação. O conhecimento do livro é o mínimo que você precisa, e o máximo é o conhecimento expandido criado por milhares e milhões depessoas que leram os mesmos livros e ampliaram a idéia, por meio de muita fricção mental, atrito com idéias diferentes e ocasionais ilhas de concordância.

Nessa visão de mundo, não cabe censura. Não cabe cerceamento de acesso. Salvo algumas iniciativas mal ajambradas de punir todo mundo para punir meia-dúzia, aceito a idéia de cercear apenas o estritamente ilegal, na letra da lei.

Porém, entramos em um ambiente pantanoso quando tratamos de acesso à rede em um escritório.

Hoje, fui acessar os sites que costumo ler de manhã, e vi vários bloqueados. Sem aviso, sem nada. Não me espantou, porque minha empresa já bloqueia MSN, Gmail e – mais recentemente – o Twitter. Agora, o ataque é aos sites e blogs.

A Internet ainda é vista como agente desperdiçador de tempo pela grande maioria das empresas brasileiras. Temerosas por ver funcionários twittando ao invés de trabalhando, e cegas para o que produtividade realmente é (uma medida de rendimento e não de tempo), as empresas vão passsando o facão e tornando a internet o reino das páginas de erro.

O mais preocupante não é o corte de acesso a textos, ensaios e conteúdo. O preocupante é o corte de acesso à interação com outras pessoas. De nada adianta você construir o que chamo de “rede de sábios”, gente que você tem ao alcance de uma mensagem instantânea ou de um post de 140 caracteres quando você está com algum pepino para resolver no seu trabalho e precisa de ajuda, ou precisa expandir seu conhecimento sobre determinado assunto, ou precisa mesmo de uma opinião sincera. A sua empresa pode – legalmente inclusive – cortar seu acesso ao mundo.

E o mais impressionante é que você não vê na rede um movimento ou ao menos uma tentativa de abrir a cabeça das empresas sobre o acesso à internet. Você vê analistas, empresas de consultoria, mídia e pessoas que deveriam orientar a empresa endossando a limitação da rede, de forma ampla!

Será que não é hora de mudar a figura? Não está em tempo de mudar essa mentalidade, promover a internet como ela é: um instrumento que pode ser usado para coisas erradas, mas também para coisas excelentes, e tratar seu uso de maneira ponderada, ao invés de burramente preventiva?

Porque não punir o mal uso ao invés de bloquear o uso?

Por que não usar a medida do “trabalho feito” ao invés do “tempo trabalhado” para definir o que é tempo desperdiçado?

Por que não estimular a interação do seu analista de sistemas com aquele conhecido norueguês que conhece o servidor com o qual ele trabalha, ao invés de tratar toda conversa no MSN como “desperdício”?

Por que não pensar em uma política de TI que vise o aumento do conhecimento agregado da empresa, ao invés de limitá-la aos livros, revistas e apostilas que ficaram defasados 1 mês depois de comprados?

Esse é o tipo de assunto que eu gostaria de ver um Sérgio Amadeu tratando. Prometo voltar nele assim que tiver menos indignação com minha experiência recente.

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3 thoughts on “Na contramão do mundo

  1. Acho que são assuntos diferentes que foram colocados na mesma bandeja. Não por você, mas, sim, pelos que tentam controlar a “produtividade” por meio do controle do funcionário.

    Quando trabalhava no Planetário, sofria com a restrição de acesso imposta pelos servidores da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente. Era a restrição básica: MSN, Orkut e afins. Alguns sites com palavras-chave específicas (sexo, mulher pelada etc.) eram bloqueados.

    Eu achava mais ou menos razoável. Sabia que se eu tivesse acesso a esses sites ou a esses serviços, não teria meu trabalho prejudicado. Precisaria saber, é verdade, gerenciar melhor minhas ações para não deixar a distração tomar conta de mim.

    No entanto, existem os mais variados tipos de distração em um ambiente de trabalho. Do café às reuniões de equipe. De uma suposta análise de dados à enrolação plena ao escrever um relatório.

    A diferença é que o Orkut brilha azul na tela, enquanto esses outros exemplos que citei são, de certa forma, incentivados.

    Os que proibem o acesso ainda enxergam na internet um inimigo. Os que perdem tempo realmente vadiando na internet (e no café, no relatório, na reunião de equipe…) são mal gerenciados.

    Essa segunda parte nunca entra nas análises de “produtividade”.

    • Eu senti também que estava falando de duas coisas. Por mais que elas estejam ligadas, acho que eventualmente vou abordar as duas em separado.

      Mas acreidot que a internet nas empresas é mais um capítulo desse algo maior que é a definição de produtividade do empresário brasileiro. 🙂

  2. Podem até ser duas questões, mas comentá-las é fundamental e juntas talvez possa gerar novas. Citar o desespero com relação à manunteção inútil de certos sistemas também remete à incompetência de determinadas medidas, que deixam escapar as atitudes mais equivocadas e prendem-se a detalhes provavelmente arbitrários e injustificados. Levar esse questionamento adiante terminaria em uma busca muito além das 4 paredes de um escritório…

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