The Dark Knight – Uma no cravo, outra na ferradura

(Leia antes “The Dark Knight – tentando falar o que não foi falado…“)

Tentando fugir das resenhas tradicionais do filme, vou realizar um verdadeiro tour de force dialético. Vi no filme coisas que achei muito interessantes – impressionantes até – e outras que não funcionaram tão bem e que estão sendo ignoradas no hype que a obra gerou no público.

Só para fazer graça, vou alternar entre “no cravo” (acertos) e “na ferradura” (erros).

No Cravo – A caracterização dos personagens

Simplesmente perfeita. A substituição da Katie Holmes pela Maggie Gillenhal simboliza a preocupação do Christopher Nolan com a maior precisão dos papéis, além da evolução. A Sra. Cruise não cabia no perfil de uma procuradora madura, com aquela cara de “barely legal com cara de choro”.

Todos os personagens do primeiro filme mostraram o amudurecimento que se esperava. O Batman não é perfeito, haja visto sua tentativa de aperfeiçoar equipamento e seu papel. Ele é um herói em construção, por isso falha diversas vezes ao longo do filme. O mesmo vale para Harvey Dent, extremamente humano, saindo do “larger than life” para mostrar que não era tão perfeito quanto parecia ser.

Na ferradura – O subplot do Reese

Pareceu muito forçado – quer dizer que o cara descobre a identidade do Batman, tenta chantagear o Lucius Fox, ameaça falar na TV e fica tudo por isso mesmo? Acho verossímel algém descobrir a identidade do Batman do jeito que ele descobriu, mas manter o personagem com esse conhecimento sem amarrar propriamente esta ponta (a gratidão dele por ter a vida salva por Bruce Wayne não conta muito para mim) é um erro.

Mesmo que isso seja explorado em um eventual terceiro filme, é uma ponta que deveria ser amarrada neste.

No cravo – O Coringa

Não vou me alongar muito, pois vou dedicar um post para o personagem, mas vale o registro de que a atuação é simplesmente excelente. O Heath Ledger canalizou o Coringa mais insano das HQs e transmitiu com segurança. Não concordo com a opinião geral de que “botou o Jack Nicholson no bolso”, porque o Coringa do Ldger tem muito do Coringa do Nicholson (algumas vezes eu fechei os olhos e imaginei o Nicholson recitando algumas falas do Ledger). O Coringa do Nicholson era caos com estilo, o do Ledger é caos puro, que não precisa dizer de onde veio nem para onde vai.

E vale o registro de que o Ledger participou ativamente da caracterização, inclusive decidindo pelo look “pintura inacabada e cabelo desgrenhado”. Ponto pra ele.

Na ferradura – O aproveitamento de Harvey Dent

Apesar de importante para as pontas soltas que o Nolan deixou para um futuro terceiro filme, a morte do Duas Caras destrói um personagem que seria – não, deveria ser – o ponto focal da continuação. Você não recria um vilão tão bem quanto foi feito com o Duas Caras para matá-lo, mesmo que a força simbólica do momento e o que se gerou disso seja a fundação do futuro da franquia Batman. Perdeu-se um grande personagem para um próximo filme, que não teve a exposição que merecia (menos de um terço do filme é dedicado ao Duas-Caras).

No cravo – Liberdade artística

Existem muitas coisas que funcionam excelentemente bem nas HQs que não funcionam na vida real. A Marvel ignora isso e ainda faz grandes filmes de super-heróis. Com TDK, Christopher Nolan decidiu pela verossimilhança: você acredita que dá para ser o Batman (e existem livros dedicados a explicar /comofas), se tiver tempo, recursos e obsessão suficientes para tal.

Algumas mudanças no original fizeram o filme ficar mais preciso ainda: transformar Rachel Dawes no amor da vida de Harvey Dent E Bruce Wayne amarra muito melhor a relação entre os dois que na HQ (por isso que não canso de falar: não deviam ter matado o Duas-Caras). Esses detalhes me lembram o escritor de HQs ultrarealistas Garth Ennis, que prega que verossimilhança é melhor que realidade. Indeed…

Na ferradura – Gotham City

É o preço da verossimilhança: Gotham City não parece Gotham City. A cidade que é praticamente uma personagem das HQs virou uma cidade qualquer no filme. Por mais que o filme nos faça questão de lembrar que GC é uma cidade corrompida do topo ao chão, nada na cidade exala isso. Tim Burton pode ser o rei do exagero, mas sua caracterização de GC foi perfeita: arquitetura gótica, sombria, assustadora, uma cidade que ninguém gostaria de morar.

Claro que o Nolan parece ser o tipo de diretor que gosta de trabalhar com personagens e não com ambientes, mas no primeiro filme Gotham City tinha mais cara de Gotham City.

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