A Última História da Turma da Mônica

Chovia muito no bairro aquela noite. As notícias davam conta da descoberta de arqueólogos de uma nova espécie de dinossauro, com braços curtos e que se alimentava basicamente de alfaces. Chamaram-no de “Horácio”.

De qualquer maneira, em uma noite chuvosa, o crime inundava a cidade. O detetive recebeu um chamado da central: dois corpos de criança encontrados em uma rua duas quadras de onde ele estava. Respondeu o chamado e foi ao local, torcendo para que fosse um caso simples. Mas não era. Nunca é.

Ao chegar, viu Cebolinha caído de cara na sarjeta. A água da chuva que corria rumo ao bueiro lavava o corpo, produzindo um córrego avermelhado de sangue, originário da larga cabeça, coberta por apenas 5 fios de cabelo que um dia estiveram bem dispostos, mas que haviam virado uma bagunça no crânio esmagado.

Alguns metros à frente, viu o amigo inseparável Cascão. Ao contrário de Cebolinha, Cascão estava de rosto virado para cima, deixando marcas no chão atrás dele. Provavelmente se arrastava para dar o último adeus ao amigo enquanto morria; uma amizade forte, como o bairro dizia. A grande ironia foi Cascão, famoso no bairro por evitar água, ter seu corpo coberto pela chuva que cobria a área. Mas se não morresse agora, a infecção generalizada que os pais disseram que ele havia contraído por anos sem se limpar faria isso por ele.

O rosto dos dois meninos era uma massa disforme, golpeados por algum objeto com muita força. A face de criança sumira, para dar lugar a uma cruel máscara da morte.

Franjinha, membro da turminha do bairro, ofereceu-se para analisar as poucas evidências que restavam: fibras não identificadas nos rostos. A análise revelou que as fibras da arma do crime eram de um animal de pelúcia azul.

Franjinha e o detetive se encararam e chegaram à estarrecedora conclusão quase ao mesmo tempo. Mônica. De certa maneira, fazia sentido. O detetive correu rumo à casa da menina, mas ela estava toda apagada. Onde estava?

Lembrou-se de Magali, amiga de Mônica que poderia ajudar no paradeiro da suspeita. Pegou o carro e rumou à clínica psiquiátrica onde Magali estava internada para se tratar de bulimia. As marcas nas mãos não deixavam dúvida: Magali comia, comia, comia, e usava os dedos para, segundo as palavras da glutona, “eliminar o mal da comida”.

O olhar pálido e distante mostrava uma alma magra. Após uma conversa difícil, Magali revelou que Mõnica havia viajado para visitar Chico Bento, amigo da turma e o famoso líder do Movimento Sem Terra no Vale do Paraíba. Não era lugar para policial. Mas o detetive tinha que resolver o caso.

Ao chegar no assentamento, na fazenda de Nhô Lau, teve de negociar com Chico, sempre armado de seu facão fiel. Mônica estava no acampamento há uma semana, mas ela estava ausente, desde o dia anterior do assassinato.

Mônica apareceu no acampamento horas depois e foi presa pelo detetive. Alegou não estar no acampamento por ter ido acampar no meio da floresta, onde suportamente vivia um fantasma conhecido pelo folclore local como Penadinho. Este seria a causa do desparecimento de montanhistas, que lá entravam e nunca mais voltavam. Obviamente, por ter ido sozinha, Mônica não tinha álibi. O detetive prendeu-a.

Semanas de julgamento se passaram, causando grande alarde nos meios de comunicação. Um coelhinho de pelúcia azul cheio de sangue foi encontrado enterrado nos fundos da casa de Mônica, que alegou que o mesmo foi roubado dias antes do crime. O juri parece não ter se convencido das explicações de Mônica, que não se sustentavem com nenhuma testemunha.

A sentença do juri popular veio fria e cruel: pena de morte.

Um mês depois, Mônica seria executada na cadeira elétrica.

Morria assim a inocência do bairrinho, com o fim triste de seus três expoentes máximos.

Quando tudo parecia ter acabado, Franjinha visitou a sala do detetive na delegacia com uma informação alarmante: os corpos assassinados não eram Cascão e Cebolinha, e sim duas crianças de rua arrumadas para se parecer com eles. A deformidade dos rostos encobria a identidade, e ninguém se preocupou em fazer uma checagem de impressões digitais, após a identificação das roupas e pertences feita pelos pais.

Mônica já estava morta. Mas será que realmente matou alguém?

E Cebolinha e Cascão, onde estariam?

Enquanto o detetive pegava o casaco e ia para casa tentar absorver as novas informações, na Inglaterra um rapaz imundo e outro que trocava os Rs por Ls brindavam em um pub londrino.

O plano finalmente tinha sido infalível.

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