Boca 10×0 Cérebro

É impressionante a nossa capacidade de falar bobagem. O ser humano fala uma média de 150 palavras por minuto, e é mais do que certo que não pensamos antes de falar metade delas. Mas isso é o que dá o tempero para a vida (melhor ainda se não é você que dá o tempero, e si os outros), o famoso “dar um fora”.

Claro, na tradição milenar da comédia silenciosa, é fácil dar um fora sem precisar falar: deixar um pum escapar quando se abaixa, fazer uma virada brusca com o corpo e acertar em cheio uma velhinha, derrubar a bandeja do McDonalds no meio da praça de alimentação, entre outras pérolas do comportamento errático humano.

Mas os foras causados pelas palavras são mais contundentes. Até porque ao aplicarmos o quociente Murphy de coisas que dão errado, todo mundo está ouvindo o que você fala justamente na hora que você fala besteira. Tipo o Chaves com o Prof. Girafales.

Eu tenho alguns inesquecíveis (além dos não verbais que já citei lá em cima – sim, já os cometi), que me envergonham até hoje, mesmo quando lembro disso sozinho. Já estraguei surpresa de aniversário: “e aí, fulano, a gente se vê na sua festa de aniversário sábado?”, já estraguei pegadinha de colegas, já disse eu te amo para em seguida ouvir “mas eu não te amo” (e eu sabia que ouviria isso)…enfim, a lista é longa.

O maior de todos foi definitivamente no meu antigo cursinho, o Lectus. Na época, toda aquela tensão com o vestibular gerava uma série de piadas, brincadeira para aliviar o ambiente. A mais popular era (acho que até hoje fazem essa piada) “garanta a vaga na USP: mate um japonês”.

Enfim, o tema estava à toda: fazíamos variantes disso, inventávamos histórias, imitávamos o Gil Gomes treportando um crime bárbaro, onde vestibulandos tinham matado 10 japoneses para poder fazer engenharia na poli, e 1001 variantes.

Hoje meu timing e noção de humor são mais afinados, mas na época eu era selvagem; Joselito no último. Um dia, na aula de física, estávamos fazendo esta brincadeira, e eu (querendo imitar um político racista) soltei um “essa japonesada não serve para nada, temos que acabar com eles, destruí-los um por um! O que eles fizeram pela humanidade? Vamos queimá-los como os vagabundos que são!!”

Infelizmente, falei tudo isso um pouco alto. Todo mundo ouviu, inclusive o professor, Sr. Takano. Não lembro ao certo, mas tudo que consegui falar enquanto ele olhava para mim era “ma ma ma, bi bi bi, de de de”, entre outras sílabas que teimavam em não sair.

Ele olhou para mim, sorriu, e disse: “é, tem que matar essa japonesada, senão tomamos todas as vagas de vocês na faculdade”. A sala desabou, junto com minha moral. Senti-me mais por baixo que uma adúltera no Irã depois disso…

Claro, não foi o último fora da vida. Mas foi o último com japoneses.


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2 thoughts on “Boca 10×0 Cérebro

  1. Booom, a minha sorte é que estou com a memória bem fraquinha. Coisa ruim é prá esquecer mesmo. Mas acho que já dei parabéns ao invés de meus pêsames. Nessas ocasiões delicadas, não se pode nem perguntar: Tudo bem?, porque é lógico que não está tudo bem. Alguém morreu, pow. Mas vai falar o quê? Tudo mal?

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