[Meme] Literatura para os putos semi-letrados

Permiti-me usar de um português de Portugal para intitular minha participação nesse meme levantado pelo Gabriel. Vou deixar ele explicar o meme:

Se você, adulto, tivesse que recomendar leituras infanto-juvenis para pessoas em idade de aprendizado básico, de tomar gosto com a literatura, o que escolheria? Além disso, o que sustentaria essas escolhas em detrimento de outras.

É uma lista complicada de se fazer, pois é mais difícil escolher as que mais gostei ao invés de escolher as que eu acho que são mais fundamentais. Entretanto, pé na tábua e vamos nessa: lá vai minha lista.

Enigma na Televisão – Marcos Rey

enigma na televisaoQualquer pré-adolescente que deva pegar gosto pela literatura deve sempre começar por uma que seja mais próxima do real, sem deixar de estimular sua imaginação. O Marcos Rey é o mestre disso, e Enigma na Televisão entra na lista como representante de todas suas obras para os infanto-juvenis porque foi a primeira dele que li.

O estilo dele é irretocável: boas tramas, sempre com ganchos excelentes para a próxima página ou capítulo, sem excesso de informação, personagens bem definidos e escrita clara e concisa. Impressiona também o didatismo das obras dele: passivamente, eu aprendi o básico de como uma emissora de TV funciona, enquanto acompanhava os crimes que ocorriam na TV Mundial. Todo mundo que lê o livro quer ser o Ivo (repórter das amenidades), para desvendar os crimes. Quem não queria ser o Ivo na minha época certamente era menina e queria ser a Renata, a continuísta que fazia excelente papel no livro, fugindo do clichê “mocinho destemido, mocinha em perigo”.

O Marcos Rey é indicadíssimo, pois é um dos raros autores que te segue para a vida adulta, com livros igualmente excelentes e instigantes para os adultos.

Cândido Urbano Urubu – Carlos Eduardo Novaes

candido urbano urubuO Novaes (abrevio o nome por preguiça de digitar tudo, não por intimidade) foi um dos autores que me trouxe uma visão muito precisa de coisas complicadas, tornando-as acessíveis com muito humor. Ele tem dois livros-manual que são impagáveis: Capitalismo Para Principiantes e Sexo Para Principiantes, os dois podendo ser facilmente lidos por um moleque de 15, 16 anos.

Nessa coisa de preparar o caminho para a vida adulta, Cândido Urbano Urubu ensina algumas partes mais desagradáveis (mas inevitáveis) da realidade social brasileira (o livro aborda religião, exclusão, racismo, fome, pobreza, desigualdade…), só que contado como uma fábula, e movido a muita metáfora: Cândido é um urubu que se recusa a voar, e sai do campo para a cidade para viver como “gente”.

Tal como um retirante (vale lembrar que o livro é de 1975, pegando carona no êxodo do campo para a cidade), Cândido sofre no degrau mais baixo da sociedade, passando fome, vivendo como pode, mas sempre sonhando em desbancar a pomba branca e ser o “urubu da paz” (em uma sutil estocada no preconceito). O livro ainda tem as belas ilustrações do Vilmar Rodrigues, que eu já conhecia de ler a Revista Mad.

Afinal, é a Felicidade – Lucília Junqueira de Almeida Prado

afinal felicidadeUm que certamente será um dos menos cotados nesse tipo de pesquisa, mas que eu lembro até hoje. “Afinal, é a Felicidade” conta a história de Rafael, que mora e trabalha com pai e irmãos em uma fazenda no interior do Paraná. Ele contrai uma doença que o obriga a usar muletas para se locomover. Rafael vai crescendo, deixa a fazenda e vai trabalhar na cidade, convivendo tanto com a transição para a vida adulta quanto com a doença.

Acho que o brilho do livro para o público infanto-juvenil está em mostrar que virar adulto não é algo nem tão distante nem tão ruim. E que nenhuma dificuldade o impede de seguir em frente na vida. Acho que o que me pegou bastante nesse livro foi justamente isso, além da impecável descrição de tanto campo quanto cidade feita pela autora.

O Gênio do Crime – João Carlos Marinho

genio do crimePodia escolher esse ou “A Droga da Obediência”, do Pedro Bandeira. Tanto Os Karas quanto a Turma do Gordo são dignos representantes de livros em série com jeito brasileiro e trama de mistério gringa. Como eu me identificava com o Bolachão (o Gordo), vai “O Gênio do Crime”.

A Turma do Gordo (Bolachão, Edmundo, Pituca e Berenice) tem que desvendar o mistério das figurinhas falsas que estão levando a fábrica de figurinhas de futebol do Seu Tomé à falência, combatendo o temível falsificador, e concorrendo na solução do crime com Mister John Smith, o invicto detetive inglês.

“O Gênio do Crime” inaugurou uma série de 11(!!) livros sobre a turma do gordo, onde eles combatem desde o Conde Drácula até pedófilos. Podem até dizer que em alguns momentos os livros são pesados (a série do Pedro Bandeira fala também de drogas e outros assuntos mais pesados), mas o ambiente é completamente didático, descontraído, passa a informação certa do jeito certo e é irresistível.
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Enfim, escolhi livros tipicamente brasileiros. Podia escolher as adaptações de gente do naipe de Maria Clara Machado para obras universais como “O Médico e o Monstro”, mas resolvi ficar com obras mais locais, até como uma homenagem ao meu mundinho pré-adolescente, onde éramos menos expostos ao estilo, cenário e personagem gringos, podendo se identificar mais.

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