Paul McCartney – Memory Almost Full

Paul McCartney pode ser um artista menos apreciado fora dos Beatles (e por causa do que fez com eles) do que propriamente por sua carreira solo. Porém, é inegável que ele se manteve um artista top, com uma constante busca de sonoridades e idéias novas, sem esquecer o passado e sem render-se a ele.

Memory Almost Full é o 21º álbum de estúdio de Paul, e o disco onde ele finalmente acha o equilíbrio entre o que ele fez no passado (não só Beatles: você percebe traços de Wings, Paul+Linda e Paul solo no disco todo) e o que o presente melhor oferece em termos de suporte.

O grande mérito do disco ter cruzado com sucesso a linha entre 1967 e 2007 pode ser creditado ao produtor David Kahne. Produtor do disco “Driving Rain“, de 2001, Kahne é um produtor dos mais ecléticos, tendo trabalhado com Bangles (sim, ‘Walk Like An Egyptian’) e com os Strokes, e com tudo mais que for possível entre os dois extremos.

MAM (para facilitar) traz uma variedade de climas e melodias muito grande, mas o sentimento que fica é o de melancolia. O disco traz muitas reflexões pessoais, pelo que se pode perceber nas letras, e as melodias e arranjos “carregados” oferecem um clima chuvoso ao disco. Mas ainda assim, não é um disco “para baixo”. É mais saudade e aceitação do passado do que propriamente tristeza.

Quem puder, compre a versão “deluxe” do disco, disponível nas melhores lojas de importados do ramo, com 3 faixas bônus e uma entrevista com Paul. Se não puder, compre a versão nacional na Starbucks mais perto de você (a gravadora – Hear Music – pertencente à baronesa do cafezinho dos “descolados”, e o CD é mais barato lá) ou pela net.

Segue um rápido faixa a faixa do disco, para dar uma idéia do que se esperar. :

1. Dance Tonight – a faixa de trabalho dá uma idéia completamente errada do disco, apesar de ser uma bela música. É animada, levada principalmente no bandolim e com uma letra que transmite aquela alegria “besta”, sem razão de ser. Mas claro, sempre com aquele duplo sentido aparentemente inocente que Paul sempre soube fazer muito bem:

Well you can com’on to my place if you want to
You can do anything you wanna do.

A música rendeu um belo clipe com a Natalie Portman:

2. Ever Present Past – é engraçado como essa música é um contraponto perfeito para “When I’m Sixty-Four“, do Sgt. Peppers. Enquanto lá ele fantasiava sobre ser velho quando era um garoto, hoje ele olha para o passado com saudade:

I’ve got too much on my mind
I think of everything to be discovered
I hope there’s something to find
Searching for the time that has gone so fast
The time that I thought would last
My ever present past

Musicalmente, Ever Present Past, mesmo com toda a produção modernizada, lembra muito a fase Wings do Paul, aquele jeito mais descontraído de colocar melodias, sem grandes elaborações e deixando a letra dançar na frente.

3. See Your Sunshine – aquela música romântica cool que é outra marca característica dele. Bem setentista, com um clima que também destoa do direcionamento do disco, mas um tipo de música quase obrigatório em seus discos. É uma canção quase de devoção pela pessoa amada.

4. Only Mama Knows – séria candidata a melhor do disco. Um arranjo de cordas belíssimo no começo e no fim delimitam um rock forte, com vocais rasgados, uma banda pegando fogo e uma letra bem pesada. Fugindo do autobiográfico, Paul conta uma história sobre uma criança abandonada pela mãe solteira. A letra é cheia de frustração e raiva, raro de se achar em sua obra:

Only mama knows why she laid me down
In this God forsaken town
Where she was running to what she ran from
Though I always wondered I never knew

5. You Tell Me – de volta àquela “saudade do passado”, uma faixa bem triste na melodia, mas que relembra em sua letra o que passou com imenso bucolismo. É a volta ao passado, dolorosamente lembrado, talvez por causa de um presente que não satisfaz.

Were we there was it real
Is it truly how I feel
Maybe
You tell me

6. Mr Bellamy – a letra me lembrou muito o livro “O Barão nas Árvores (Il Barone Rampante)“, do Ítalo Calvino. Enquanto o livro fala de um menino que sobe nas árvores e lá mora por estar enfadado com a família, “Mr Bellamy” fala de um senhor de idade que sobe em lugar indeterminado e se recusa a descer, pois finalmente tem paz para fazer o que quiser. O arranjo é extremamente ousado dentro da obra do Paul, mas muito eficiente, mudando várias vezes de clima e ritmo à medida que a faixa avança, com um final que nos leva de volta a “Strawberry Fields Forever“.

7. Gratitude – outra candidatíssima a melhor do disco. Uma mistura de coral clássico com soul music, com Paul jogando sua melhor voz rasgada, extravasando o sentimento e abrindo o coração:

I will look forward too
Days when I’ll be loving you
Until then gonna wish
And hope and pray

Quase chego a dizer que os corais me lembram “Because“, faixa do Abbey Road, mas é impressionante como eles se aproximam demais do tipo de harmonia vocal que popularizou o Queen. A música transita entre momentos orquestrados pouco convencionais a la Magical Mystery Tour e momentos de coração na boca a la Joe Cocker.

8. Vintage Clothes – abrindo a mini-opera rock que leva Paul de volta ao passado, “Vintage Clothes” começa para cima, variando entre arranjos característicos do Paul setentista e arranjos mais modernos, transpondo para a música o duelo passado / presente da letra:

Don’t live in the past
Don’t hold onto something that’s changing fast

9. That Was Me – Bluseira até a alma, Paul foi buscar em antigos como Robert Johnson a levada dessa música. Aqui a saudade fica mais evidente, apesar do arranjo mais descontraído.

10. Feet In The Clouds – mais lenta no arranjo, mais pessoal ainda na letra, Paul coloca a dificuldade de ser diferente dos outros garotos, e de esconder seu potencial na frente dos outros, mantendo pés no céu e cabeça no chão:

I know that I’m not a square
As long as they’re not around

O grande momento do disco todo está no interlúdio genial que precede o último refrão da música: combinando uma harmonia vocal em contraponto com orquestração, Paul produz um momento belíssimo, acima de grande parte de sua obra solo (e isso é dizer muito!).

11. House Of Wax – melancólica e sofrida, a 4a faixa do medley é quase um sonho, com uma letra carregada de metáforas difíceis de serem entendidas, mas que parecem tratar de um turbilhão interno. Grande destaque para o arranjo, que cresce e leva a um solo choroso de guitarra, curto e efeiciente. Mais uma faixa onde Paul coloca o coração antes da garganta.

12. The End Of The End – Paul fecha o medley com seu testamento. É a aceitação que a idade traz, de que existem mais anos para trás que para frente. Ao contrário do que se pode imaginar, a melodia é simples e bela, leve e alegre. É certamente a melhor letra do disco, com momentos de fazer chorar:

On the day that I die
I’d like jokes to be told
And stories of old
To be rolled out like carpets
That children have played on
And laid on while listening
To stories of old

13. Nod Your Head – depois do peso de se falar tão abertamente do passado, é pouco provável que seja um acidente a colocação de um rock bluseiro, quase reminescente de Led Zeppelin, para fechar o disco. Com fortes tons sexuais e interpretação enérgica, Paul pede:

If you really love me baby
Till you fall down dead she said
If you ever want to make it
Nod your head

O arranjo é mais simples, mas os metais cantam alto. Direta, simples e quase um recado para quem acompanhou a viagem de sir Paul ao passado, que a vida é mais simples do que parece.

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One thought on “Paul McCartney – Memory Almost Full

  1. Pois, é, tem algumas músicas com clima Queen, mas tem algumas, mais perto do final do disco que a gente percebe que o Paul Orquestrou e/ou tocou de versões esboçadas eletrônicamente, que na real é a pilha dele agora.
    E quanto a ele usar coral, essa é uma técnica muito comum em compositores velhos: colocar muitas vozes, pra aumentar a sua, já fraca pela idade.
    Não é um álbum fechadinho, tem músicas que vão pra um lado, outras que vão pra outro, apesar dessas letras saudosistas

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