Cineclichê 1 – O Loser que Vira Atleta

Talvez o clichê mais recorrente do cinema americano, o mito do bobão que vira atleta ganhador de títulos da escola é uma aberração de proporções épicas. Nem mesmo 3 sessões seguidas de Ben Hur parecem durar tanto quanto um filme destes. É o melhor do pior da Sessão da Tarde, um filme que começa com você já visualizando o final sem errar.

Para começar, Johnny é um rapaz tímido, que veio de outra cidade para uma nova escola (de preferência mudando de cidade com a mãe porque o pai morreu – isso gera tensão em algum ponto do roteiro), onde ele não conhece ninguém.

Pobre Johnny…tem 15 anos (apesar de ser representado por um ator de pelo menos 30), e a adptação na escola é complicada: os atletas do time de basquete / futebol americano / vôlei / hoquei / pelota basca / porrinha o escolhem como saco de pancadas e de alvo de humilhações diárias.

Johnny conta com o apoio de seu amigo Dick, um loser de marca maior, que vive chamando os outros de “dude”, e vive com camisas de flanela amarradas na cintura, tem o cabelo desarrumado e anda com o walkman enfiado no ouvido. Esse personagem (que às vezes é negro para gerar a ilusão de filmes politicamente correto) serve apenas para alívio cômico, o que evita que as duas primeiras partes do filme virem uma choradeira de Johnny.

Johnny, por ser eterna vítima, desperta o dó da menina mais bonita da escola (qual a lógica por trás disso?), Diane. Ela é cheerleader do time de basquete / futebol americano / vôlei / hoquei / pelota basca / porrinha, e em uma destas coincidências que só acontecem nesse tipo de filme, namorada de Travis, capitão do time de basquete / futebol americano / vôlei / hoquei / pelota basca / porrinha.

Johnny, motivado por Dick, faz testes para o time de basquete / futebol americano / vôlei / hoquei / pelota basca / porrinha. Ele é levado ao limite pelo professor de Educação Física Sr. Richards, que de vez em quando tira uma garrafa de bebida do bolso e vira uma. Acaba entrando no time, sabe Deus porquê, o que aumenta a ira dos atletas. Ele se mostra um desastre nos treinos, deixando o espectador que sofre de apagão cerebral pensando “nossa, será que as coisas nunca vão dar certo para Johnny?”.

Antes da segunda parte do filme terminar, o time de basquete / futebol americano / vôlei / hoquei / pelota basca / porrinha está chegando na final do campeonato estadual. O Sr. Richards continua bebendo como um louco, o que desperta a atenção de Johnny. Nesse momento do filme, Johnny descobre que o treinador durão teve sua esposa morta por um motorista bêbado / gangue de latinos / câncer / avião da Gol, o que o deixou endurecido para a vida e um alcóolatra pela eternidade. Mas o exemplo de Johnny comove o sr. Richards, que larga da bebida e inicia uma nova vida.

Diane e Johnny se beijam, depois dele acompanhá-la até em casa. Travis vê tudo à distância e jura vingança. No dia seguinte, algum tipo de humilhação bem grande acontece para Johnny (envolvendo ele aparecer pelado no meio do refeitório, alguém virar nele a bandeja do refeitório, alguém dizer no referitório que ele coleciona Bonecas Moranguinho; enfim, algo no refeitório), e Diane termina o namoro com Travis. Johnny, achando que Diane está envolvida, não quer mais vê-la.

Na véspera da grande decisão, o Sr. Richards, anuncia a escalação do time para a final, com Johnny no banco de reservas.  Na final do estadual universitário de basquete / futebol americano / vôlei / hoquei / pelota basca / porrinha, sem ter melhorado seu jogo em ao menos 0,5%, Johnny é escalado pelo técnico para entrar no jogo no momento em que o time está perdendo.

Antes de Johnny entrar, ele e o sr. Richards compartilham um momento, no melhor estilo “você me deu uma chance, agora estou te dando uma”, “se eu fui capaz de superar a morte de minha esposa, você é capaz de superar suas limitações”, “você é um vencedor só por tentar”, e outras bobagens, no que é a substituição mais demorada da história do basquete / futebol americano / vôlei / hoquei / pelota basca / porrinha, porque essa cena dura uns 5 minutos de filme.

Para descrença dos atletas (e de quem espera algum bom senso de quem vê o filme) Johnny vence a final do campeonato estadual para o time!!! Ele é gente que faz!!!  A cena do ponto da vitória é sempre padrão: faltam 10 segundos para acabar a partida, o time está atrás por um ponto, e a bola está na mão de Johnny. Os 10s duram 15 minutos de filme, pois cada movimento de Johnny é reduzido para 1/32, tempo para captar as reações de: seu amigo bobão, sua amada, o rival, e o Sr. Richards, que sempre usa chapéu nessas horas, para ter o que jogar no chão, naquele gesto de “eu não acredito!”

Viva Johnny!!! Os colegas o carregam no ombro, Johnny está feliz como um deputado em um bordel de Brasília, mas falta algo. Diane está lá, olhando para ele. Ele desce dos braços do povo, corre até o ponto da quadra onde Diane está sozinha e a beija, mesmo sem o filme mostrar em nenhum momento que ele deixou de acreditar que ela estava por trás de sua humilhação. Travis, o rival, em pura atitude de corno manso e domesticado, cumfica com a garota, resolve o problema de bebida do treinador e é cumprimentado por seus ex-inimigos.

Ele vira um cara da turma. Fim.

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