São Paulo, terra da placa

Nunca escondi de ninguém que adoro essa cidade. Sempre que viajo de férias, minha referência é procurar uma cidade no padrão de São Paulo: restaurantes, shoppings, cinemas, cultura…não que eu odeie praia ou campo, mas essa cidade tem injetada nela um vírus que não te permite odiá-la. Onde mais se encontra gente que topa encarar 2 horas de fila para um cinema? Tem que ser paulistano para entender.

Aí, eu me vejo em um dilema na questão da remoção dos outdoors e placas aqui na cidade, promovidas pelo sinistro Gilberto Kassab.

O atual prefeito parece um franco-atirador, procurando grande repercussão para ver se emplaca (trocadilho!) uma “reeleição”, visto que nem eleito a primeira vez foi; o Brasil é a terra do nonsense. Também não escondo que não gosto dele, mas não estou de todo contra a questão das placas. Por isso, não fiquem revoltados se meu texto não tiver uma conclusão (ó, pecado daquele que disserta!).

Primeiro, a “publicidade externa” (que chique!) virou bandalheira na cidade. Já estava vendo a hora em que iam colocar outdoor de Jontex na parede de igreja, visto que quase já não tinha mais espaço na cidade para tanta mensagem. Existe a visão romântica de que o mar de placas e luminosos criam uma arte em si, que esconde o cinza dos prédios da cidade.

Mas também não é causa para esculhambo. Tem gente que romantiza até cagada de cachorro só para ser diferente, então é difícil levar a sério. Eu acho que arte é uma coisa bacana, desde que não sobrecarregue minhas combalidas sinapses. Como visitar a Rua Direita e identificar uma placa no meio das milhões que moram lá? Impossível; o ser humano não tem esse foco todo. O incômodo é semelhante ao sem cor dos prédios que ficou após a aplicação da lei.

As placas, de publicidade ou de fachadas, são necessárias? Discutível. Mas elas existiram. A prefeitura não está eliminando a idéia antes de nascer, está eliminando após sua consagração. Aí que mora o perigo. Eu morava perto do Detran, e chapava vendo aquele outdoor da Metal Leve (o que tinha o pistão gigante em funcionamento terno), achava algo sensacional, até porque na época internet e Playstation não existiam.

E fachadas? A do Mappin na praça Ramos virou patrimônio histórico, tamanha a identificação dela com aquele pedaço do centro. Isso sem contar as vitrines dos anos 50, que não vi ao vivo, mas sobre as quais sempre ouvi ótimas histórias, especialmente do pai da maioria delas, o grande Alex Periscinoto.

Cinema não é cinema sem ter os filmes na fachada. Ok, cinema de rua hoje em dia virou alvo de igreja evangélica, mas ainda restam alguns bravos, especialmente na região da Paulista, que estavam realmente caprichando no visual. E, apesar de cinemas serem negócio, ainda são difusores de cultura. Por que não dar uma brecha para eles e para os teatros?

O comércio sofre. Não é fácil ser comerciante em SP, onde mesmo que seu ramo seja estátuas de resina da turma da Mônica simulando posições do Kama Sutra, ainda assim você vai ter 500 concorrentes só na sua região. Logo, o lucro é sempre escasso, e o salário do comerciante acaba não sendo muito melhor que do assalariado, com o triplo de dores de cabeça. Não sobra para reformar fachada. E tem que tirar a placa. Aí a prefeitura falha de novo: cadê o incentivo? Cadê o esclarecimento da lei para o comerciante? Eu, se fosse o prefeito (modestamente), criaria duas coisas: desconto de IPTU para reformar fachada de estabelecimento comercial e concurso da fachada mais bacana que cumpre com a lei, premiando o comerciante e a empresa que fez a fachada.

Fala se não ia ter gente se dedicando a fazer o estabelecimento ficar mais bonito, empresa de fachada fazendo parceria com comerciante para ganhar prêmio…são idéias bem simples que não foram levadas em conta na hora do facão.

Bom, não prometi conclusão nesse texto, até porque o assunto é complexo e carece de desenvolvimento. Mas é certo que toda solução que nivela por baixo acaba tendo conseqüências indesejadas, bem como é certo que a cidade precisa respirar no visual.

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