“Olha Mãe!!! Eu Falo no Celular Sem as Mãos!!”

A tecnologia é um assunto bastante surrado em discussões, especialmente sobre seu potencial para o bem e para o mal da sociedade. Discute-se muito que a tecnologia facilita nossa vida, aí retruca-se que as relações sociais são esganadas pelo fantasma tecnológico, e por aí vai.

Eu já sou daqueles que acha que o pior que a tecnologia traz é a imbecilização do ser humano. Caso em questão: o Bluetooth.

O Bluetooth é um conceito interessante: permite que você fale ao celular sem utilizar as mãos, ou como dizem os americanos, hands free. O celular fica no console do carro, na mesa ou onde quer que seja, e você conversa com aquela coisinha espetada na orelha. É uma ferramenta excelente para aqueles que passam muito tempo dirigindo, ou que fazem várias tarefas ao mesmo tempo…enfim, para gente que é ocupada e que está ocupada.

Mas é claro que o mundo não é tão simples assim. Um dos aspectos mais canhestros da tecnologia é estimular nas pessoas o hábito do “ter por ter”: você não precisa, você até gosta de se bacanear com um brinquedo legal, mas no fundo você não sabe porque comprou certo apetrecho.

Isso acontece com as inovações mais recentes: iPods para quem não gosta de música, Palms para quem trabalha das 9 às 18 sem sair da mesa ou do escritório, e Bluetooth para quem fala no celular no máximo 15 minutos por dia.

O Bluetooth virou uma carne de vaca, um recurso para parecer mais bacana. Principalmente porque ele está sempre aparente: por mais que alguém tente não olhar, aquela luz azul na orelha alheia é infalível. Esta mania é uma evolução da primeira mania da telefonia móvel: usar o Ultratac no cinto. Lembra? O cara metia uma capa de couro naquele tijolo, e o colocava bem ao lado dos quadris, usando aquilo como se fosse um revólver de policial: pronto para sacar. O Bluetooth nem precisa ser sacado, e é notado mesmo quando não é usado.

Veja você o drama de quem na verdade (a) não precisa de um Bluetooth, mas tem mesmo assim, ou (b) quem tem, usa no escritório mas quer botar pressão em sua vida pessoal também. Certo dia, fui até a padaria e vi no caixa um indivíduo vestindo bermuda, chinelo, regata e Bluetooth. Domingo à noite. Que ligação importante essa pessoa espera, ainda mais vestida desse jeito? É assim: “estou preparado para receber uma ligação urgente, mas se precisar sair daqui para resolver algo, tenho que ir em casa, tirar a roupa do domingão, tomar banho, escovar os dentes, pentear e o cabelo e VUPT! O Bluetooth agilizou minha vida!”.

Outro caso impressionante foi encontrar no Pão de Açúcar (o supermercado, não o ponto turístico, nem mesmo o pão), enquanto tomava café com um cliente, uma senhora de uns 70 anos com o Bluetooth espetado na orelha. Sinceramente, vamos esquecer o machismo e, ao invés de perguntar porque a Dona Maria que não deve ter nada a não ser atividades em casa e para a terceira idade, vamos perguntar que urgência ela tem em sua vida? Só se for para chamar a ambulância…

Enfim, o Bluetooth virou mais um enfeite que um suporte tecnológico: é feito por pessoas que passam anos pensando em utilidades, criam um aparelho que atende esta utilidade, e vendem para gente que só vê utilidade como uma versão hi-tech do brinco para orelha.

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