O quartinho

Certa vez, veio um cara consertar a luz do quartinho dos fundos. Chegamos lá e ele tinha sumido. E sem consertar?  

Foi embora na cara dura.

Chamamos outro eletricista, veio e dessa vez ficamos na cozinha, única saída entre o quartinho, o quintal e a casa. Esperamos horas e nada. Fomos lá ver, ele não estava no quartinho.  

Mas como pode? Só tinha uma explicação: o quartinho comia eletricista.

“Eletricista ou qualquer um?”, perguntou o vovô. Mamãe não sabia dizer, e eu com 10 anos muito menos. Mas entramos no quartinho (vovô foi primeiro, porque faria menos falta – reclamava demais, e tossia noite toda; ninguém dormia), e saimos sem problema.  

Será que poderíamos chamar mais um eletricista? Arriscar a vida de mais um? Mamãe disse que sim, que eletricista tem sobrando, mas achou bom chamar também um pedreiro. Para ver se o quartinho comia também. Papai chamava isso de “método científico”: você ia testando até chegar a uma conclusão. Não deu outra: o quartinho comeu os dois. Tentamos ficar vigiando dessa vez, mas o quartinho estava bem escuro, e pelo jeito não dava tempo nem de acender a lanterna.

Não quisemos vigiar muito de perto, porque de repente o quartinho confunde a gente com um eletricista (ou um pedreiro). E agora, o que fazer com o quartinho? Até decidir, fizemos mais uns testes nas semanas seguintes: serralheiro, encanador, mais eletricista…até chamamos um vizinho, que era eletricista só de hobby, e o quartinho nem quis saber: mandou ver.  

A vizinhança já sabia do quartinho que comia gente, e começaram a reclamar com mamãe dos hábitos alimentares do cômodo; uma vez que ele havia comido muitos eletricisitas, sobraram poucos. E, coisa que não sabia então, a oferta de eletricistas estava menor que a demanda. Logo, os preços aumentaram.

Enquanto vovô pesquisava na biblioteca se nossa casa tinha sido um cemitério indígena em outros tempos ou alguma coisa do tipo, mamãe ia pesquisando oferta e demanda de serviços domésticos. Descobriu que tinha chaveiros demais na região, então foi mandando alguns para o quartinho. Depois, os marcineiros. Mamãe equilibrava o mercado da Vila Mancebo sem ser ministra nem nada; o quartinho fazia bem o papel de agente regulador. Vovô não descobriu nada na biblioteca. Papai estava muito ocupado trabalhando, e mamãe já tinha montado um cardápio para o quartinho, baseado nas flutuações do mercado de serviços. Eu ia assistindo tudo.  

Até que um dia, mamãe mandou um pintor para o quartinho e…nada. O pintor saiu dali com um orçamento, e mamãe com cara de tacho.

Inconformada, chamou no mesmo dia dois marcineiros e um carpinteiro. Nada. Nem mesmo uma tentativa de se alimentar. Nem uma beliscadinha. E tome mais três orçamentos…

O mercado estava liberado mais uma vez, os preços voltaram ao normal, e o quartinho foi reformado. Mamãe esqueceu da história, vovô infelizmente não foi levado nem pelo quartinho nem por Deus por outros 10 anos, e o quartinho não comeu mais nada.  

Papai, durante um almoço de domingo, sentenciou: “mamãe matou o quartinho de indigestão”.

E ninguém mais falou disso.

Nem da privada que engolia as visitas.

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5 thoughts on “O quartinho

  1. Rô, os seus textos estão ótimos! acabei de ler o do Ipod, acho que devo ser a única pessoa que não tá nem aí para os acessórios! mas fiquei com medo do preço da bateria, de verdade! o filhote de cachorro que eu quero comprar custa quase o mesmo preço haha
    Bjo!

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