Marillion – SOMEWHERE ELSE

Uma coisa muito engraçada sobre o Marillion é que sempre comparam os discos novos com alguma banda “do momento” (Radiohead e Coldplay são as favoritas), mas sempre quem diz isso ignora há quanto tempo essas bandas existem e há quanto tempo o Marillion vem burilando esse som, no esquema de pegar um ou dois acordes e criar um crescendo até o final da música. Caso em questão: SOMEWHERE ELSE, 14º disco da banda.

Claro que se as músicas da banda se resumissem a isso, seria algo muito chato. Afinal, é uma fórmula que dura já mais de 20 anos, e suas variações sustentam a banda até hoje. Apesar de muitos renegarem a fase atual da banda, com Steve Hogarth à frente (história para outro post) , é inegável como a banda envelhece com estilo e qualidade sem perder aquela raiz que a torna diferenciada. 


180px-swetease_jpg.jpgEm SOMEWHERE ELSE,  a sensação que toma conta de quem ouve é de conforto; apesar de ter seus momentos nervosos, o disco flui agradavelmente costurando melodias viajantes com momentos de angústia instrumental, vocal e lírica. Essa alternância toma conta do disco e das faixas: músicas como “The Wound” chegam a combinar todos esses sabores, tal qual “Goodbye To All That” fez no BRAVE. Como sempre acontece, o último disco nunca pode ser referência para analisar um trabalho novo da banda. Existe sempre a preocupação de inovar, partir do que foi feito antes e construir algo novo, por mais que o antecessor acerte. Depois de MARBLES, um disco intenso, com pouco mais de 2 horas de duração e com uma inclinação para o teatral épico em alguns momentos, SOMEWHERE ELSE parte para a (aparente) simplicidade.  

As músicas são mais curtas (nenhuma passa de 8 minutos, e a média está em 5 minutos) e as construções menos estendidas,  o que favorece a fluência do disco. Enquanto MARBLES ligava as faixas com temas recorrentes, a seqüência de faixas do SOMEWHERE ELSE faz o trabalho de tornar o disco uma única obra, com mais coesão. Até mesmo “Faith”, que deveria entrar em MARBLES, parece feita para SOMEWHERE ELSE. 

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Meus destaques no CD começam por “The Other Half”, minha favorita, e uma faixa que tem tudo que faz o Marillion ser o Marillion: duas partes bem distintas, a transição brusca do nervoso para o introspectivo de volta para o nervoso. Excelente trabalho de piano e guitarra marcando a pasagem da primeira para a segunda parte, e arrepios garantidos à medida que o H deixa mais claro o anseio de dizer que sem sua outra metade nada é válido. Quando já não há mais ar para se gritar, entra uma variação mais vigorosa do solo do Steve Rothery do meio da música. Excelente. 

“Thankyou Whoever You Are” parece uma versão moderna para o estilo Beatles de música: o piano abre muito bem a faixa, e os strings sintetizados trazem força ara o refrão. Sem tempos quebrados, estrofe-refrão-estrofe, mas ainda assim bem complexa na melodia. Já a faixa-título “Somewhere Else” vai fundo na introspecção e no progressivo, extremamente preocupada na construção de um clima ideal para finalizar a viagem. A letra é muito bem sacada, carrega o sofrimento junto com a música, e o final leva tudo para outro nível. Deve funcionar muito bem ao vivo. 

“The Wound” também trilha o mesmo caminho do prog e do atmosférico, só que ao contrário da faixa-título, ela começa em um pique bem rocker, e quando parece que ela vai terminar assim, ela evolui para um belíssimo arranjo de teclados pontuando a performance da banda. A faixa mais “diferente” do disco, que acerta na mosca com méritos, até por ser muito difícil fazer uma música que começa em um pique alto e transformá-la em algo mais introspectivo; o contrário cai melhor sempre.  Em “The Last Century For Man”, a letra chega a ser um pouco questionável, chega no limite entre o legal e o piegas, com uma crítica à postura da humanidade frente a aburdos ambientais e sociais. É um tema que não somente já foi tratado em outros momentos da banda (e até de maneira mais bem construída, como em “This Is The 21st Century”), mas a música é tão boa que você nem pensa muito na letra. A parte instrumental que antecede o final da música é intensa, de tirar o fôlego, tamanha a presença da banda em todos os canais. É um verdadeiro murro sonoro, onde vários elementos interagem sem atropelo. É preciso ouvir para crer. Acho que vou encontrar discordâncias, mas eu gosto muito de “Faith”, desde que a ouvi na época em que ela estava escalada para ser parte do que se tornaria o MARBLES. Ela é simples e extremamente bem executada, com uma letra excelente. A versão SOMEWHERE ELSE dela tem o acréscimo de mais instrumental, incluindo um French Horn, que deixcou a música mais encorpada sem perder suas melhores características. 

Enfim, não é um disco que trará um grande impacto na carreira da banda (não o classificaria como indispensável), mas SOMEWHERE ELSE é definitivamente um disco de presença, que vale várias audições e muita atenção.

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15 thoughts on “Marillion – SOMEWHERE ELSE

  1. Um ponto positivo e um negativo de sua resenha.
    Postitivo: Voce não falou mal de Most Toys!
    Negativo: Não comentou a bela melodia de A Voice From The Past.

    Indispensável é algo muito relativo. Para fãs de Marillion o classifico como indispensável sim. Para quem não gosta……daí sim.

    Legal teu blog….

  2. Guilherme, eu não gosto de Most Toys, mas não quis fazer uma resenha com negativismos, então evitei falar de algumas faixas que não gostei.

    Quanto a Voice From The Past, essa música ainda não me caiu. Quem sabe daqui a um tempo?

    E eu sou muito pessoal nas minhas críticas. Para mim, o SE não é indispensável, passaria sem ele em uma ilha deserta. 🙂

  3. concordo com o Guilherme. Faltou falar de A Voice From The Past, para mim a melhor música do álbum juntamente com The Wound. Mas já que você não falou mal de Most Toys, posso eu falar? Candidata séria a pior música do Marillion, apesar da ótima letra, em tom crítico. (Desculpe, guilherme, não me contive. hehehehe.) Abraços.

  4. Paulo, deixa te contar um segredo. Esse post estava pronto desde semana passada, e programei para sair hoje. Quando escrevi, me deu um branco sobre como se traduzia o “french horn”, e meu thesaurus estava em casa.

    Fiz uma nota mental para trocar depois pelo nome em português e acabei esquecendo, hehehhehe. Valeu pelo toque. 😉

  5. Agora chutaram o pau da barraca….Pior Música???? Most Toys???O Loco….hahaha…

    Gosto é gosto né gente… ta certo! Eu não ligo não…….

    E rodrigo, tem mais gente reclamando da Voice From The Past cara…da um jeito de arrumar aí, huahuahua….brincadeira….Bom dia aí pessoal!!!

  6. Rodrigo, vc tá perdoado pelo French Horn… Ninguém é obrigado a saber tudo… hehehehe quanto a deixar Voice From the Past de fora, aí já são outros quinhentos!
    E Guilherme, só prá me justificar, o meu problema é com músicas que repetem exaustivamente alguma coisa. Na minha lista das piores músicas está uma que todo mundo adora e eu acho um porre, que é Cover My Eyes… Cada vez que ele repete “Pain and Heaven” eu acho uma “pain in the ass”, sabe? Tanto que a versão acústica que tem no cd bônus acabou por recuperar a música prá mim… E Most toys tem esse defeito… Repete o refrão (com a letra genial, reitero) até não cagber mais no saco… E olha que são só 3 minutos! Bem, justificado?… Abraços em ambos.

  7. Olá Rodrigo! Muito boa tua resenha sobre o CD… na verdade nao é dos melhores do Marillion.. mas como vc disse no final, é um disco de presença. Tive a oportunidade de ver o primeiro show desta nova turnê (e segundo show que fui deles) e simplesmente foi o melhor show que fui em minha vida! Sobre Most Toys, é algo fraca, mas o conteúdo é algo importantísimo! A mensagem que passam em todo o cd, falando sobre os problemas para a a humanidade atual e futura é algo que toca o nosso coraçao.. e no show isso se torna realidade..pelo menos a mim.. que tocou bem forte!

    Bom.. um abraço desde Espanha!

  8. Excelente post este!
    Alguém que percebe do que fala.
    Até já ouvi comparações com Muse, dado ser uma das bandas favoritas do H.
    Brave será sempre o Brave, mas é um álbum a te em casa, sem dúvida.
    Eu tenho-os a todos.
    E gostar de MArillion é saber ouvir uma música de 15m sem se dar por isso, sem ter que haver refrões e haver variações constantes de melodias.

  9. Cada vez eu tenho mais a impressão de que devo ter uma demo ou uma versão inacabada desse cd, pois até agora não consegui encontrar toda essa beleza e perfeição que tenho lido em algumas resenhas por aí.

    Um abraço!

  10. olá pessoal.. VOICE FROM THE PAST me dá sustos.. fala de coisas complicadas de lidar.. HIV… ufa.. esse é o marillion que amo..

    abs a todos e viva o marillion.

    most toys.. nem eu gosto.

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