Meninas

Bianca tem 12 anos. A chuva nem incomoda tanto quanto o frio. A blusa fina que a mãe tirou do armário não é suficiente para a mistura de garoa com sereno da madrugada. Mas falta pouco; mais 15 minutos para abrir a escola. Como a mãe pediu, ela espera na banca de jornal, contando o tempo e pensando na vida.

30 minutos depois que os portões se abrem, Julia chega. 14 anos, com aparência de uns 17 por causa da altura e do corpo. Forte, cara fechada, ela anda sempre com o mesmo grupo de meninas. Conversam sobre MTV, blogs, fotologs e começam a falar de meninos.

Naqueles 15 minutos que ligam a chegada de Julia à campinha que avisa do início das aulas, o pátio do colégio formiga com crianças de todas as idades. A mistura é considerada interessante para pedagogos e pais, mas nenhum deles está lá. Nenhum deles acompanha Bianca de perto. Quer dizer, se um diretor, um professor ou um funcionário disser que vigia o comportamento de aluno por aluno, estará mentindo.

Bianca gostaria que olhassem só para ela, mesmo que durante esses 15 minutos. Porque ela não vai falar. Não, não vai. Tem vergonha, acha que é natural o que acontece com ela, e que tem que aceitar. Mas é tão difícil. Então ela cala, torcendo para um dia ter coragem para contar para alguém e realmente descobrir se as coisas devem ser assim mesmo.

Julia se aproxima. Bianca olha para os lados, não tem por onde sair sem passar por ela. A presença de Julia é total, ela ocupa todo o pátio aos olhos de Bianca. As mãos suam, ficam molhadas. Mais tarde, essa umidade vai se misturar com as lágrimas. Ela pensa na inevitabilidade, e sua cabeça viaja para longe daquilo.

A primeira menina chega até Bianca e lhe empurra para o chão. As demais riem, a não ser Julia. Ela parece ter prazer com isso, talvez até tenha. É difícil dizer, pois a expressão dura não muda. Julia também pensa que é assim que as coisas devem ser, que seria errado não fazer. Se fosse errado, alguém a teria impedido. Com isso, abafa aquela voz bem no fundo que diz “pare”, e vai em frente.

Julia senta em cima de Bianca, colocando seu corpo avantajado em cima dela. A fina blusa que não impediu a sensação de frio fora da escola não impede Bianca de sentir o frio chão de azulejos. Julia dá o primeiro tapa, e o único; ela já sabe que não quer deixar marca, então toda a agressão daí para frente é verbal.

Julia não tolera o cabelo loiro de Bianca, nem suas roupas bonitas, nem a pulseira com penduricalhos, nem a mochila com lancheira da Hello Kitty. Agride com palavras, machuca a cada xingamento. De vez em quando, joga mais seu peso em cima de Bianca, mas o que mais dói no final são as palavras. E as risadas das meninas em volta. Bianca sente o ódio batendo no peito. Algumas vezes, chegou perto de liberá-lo, mas nunca o fez. No fundo, Bianca tem raiva da situação, tem raiva dela mesma. É assim que as coisas devem ser.

Julia termina a sessão, levanta-se e, junto das meninas, começa a se dirigir para a sala. Bianca sempre fica 1 ou 2 minutos no chão, por medo que Julia esteja apenas esperando ela levantar para começar de novo. Parecem 2 horas; Bianca tem medo de qualquer barulho. Olha para os lados, por medo dela ainda estar por perto, esperando-a. Vigiando. Por isso que, mesmo sendo a primeira a chegar à escola, Bianca é a última a entrar na sala. O medo a impede de andar despreocupada até o andar, até a sala, até a carteira. Nem a presença de outras crianças ou funcionários por perto abafa o medo. Sente-se sozinha.

Ao final das aulas, Bianca corre até a saída. O pai geralmente está lá, esperando, pois tem pouco tempo pra pegá-la, deixá-la em casa e voltar para o trabalho. Quando o pai atrasa, corre para a banca de jornal, onde se esconde, fingindo ver as revistas no fundo.

Julia e Bianca chegam a suas casas mais ou menos no mesmo horário. Julia corre direto para o quarto. Quem o olha, pensa que Julia é uma pré-adolescente normal. Remexe o fundo do armário, e de lá tira o estilete.

O primeiro corte é bem fininho, na ponta do dedo. Só para começar. Ela sente o corpo formigando, respira fundo, sente um arrepio. Saboreia a sensação um pouco.

Bianca está na cozinha de casa. Almoçou sozinha, como sempre. Lava os talheres na pia. Olha para o seu reflexo na travessa escorrendo na pia. Como Júlia, também respira fundo, mas de nervoso. A cozinha é fria, lembra o banheiro da escola. Ela treme. Olha a faca, pensa em um corte, só que mais profundo que o de Julia. Segura a faca na mão direita com força, traz até o pulso esquerdo.

Treme mais, não tem coragem, larga a faca. Cai no chão da cozinha, se encolhe. O frio do piso lembra o banheiro. Bianca chora.

Júlia já fez um segundo corte. Mais fundo, na parte de dentro das coxas, para ninguém perceber; já teve problemas demais da última vez. O alívio é maior, quase um prazer; mas é mais como se o peso nas suas costas ficasse mais leve. Fica tão relaxada que começa a ficar quase dopada.

Bianca, 12 anos, chora no chão da cozinha até adormecer. Júlia, 14 anos, curte o alívio dos cortes até adormecer.

As duas sonham com o tempo em que eram meninas.

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6 thoughts on “Meninas

  1. cara… essa é primeira vez que entro no teu blog. acabei lendo ele inteiro de uma vez! tas de parabéns pelos textos. extremamente bem escritos, e de um bom gosto incrivel!

    favoritei e com certeza voltarei a lê-lo sempre!

    parabéns!

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