Vou contar talvez o momento mais bizarro que já participei em algum emprego meu. Alguns que me conhecem já ouviram essa história, e não se cansam de ouvir. Então, vou compartilhar. Porém, nomes foram trocados por siglas para proteção dos culpados e delírio dos inocentes.
Tenho já 10 anos trabalhando como publicitário formado, e profissional de marketing por experiência. Desses, 5 anos foram como consultor, sendo quase 3 na PA.
O principal diretor da PA era o C. Esse merecia um blog somente para ele, para poder esmiuçar todas as nuances de seu comportamento errático, suas tempestades de humor e aquele ar de brutalidade que permeava cada instrução sua.
C era malévolo no tocante a relações trabalhistas. Cortava férias na véspera, contava os segundos que você saiu antes do horário ao mesmo tempo que exigia horas a mais sem pagar; enfim, o chefe monstro perfeito. Uma das grandes contribuições de C para a CLT eram as reuniões de sábado.
Um pouco depois de minha entrada na PA, J era o gerente a quem me subordinava. J conseguiu emprego em outra firma, e comprometeu-se com C a fechar todas as pontas soltas de seu trabalho até tal dia. Eu me ofereci (fui oferecido, na verdade) para auxiliá-lo na mega tarefa.
Chegou o dia da última reunião entre J e C. Desnecessário dizer que era um sábado.
Na longa mesa de reunião, ficamos eu e J de um lado da mesa, e C do outro. J começa a presentar as atividades realizadas no período. As pontas soltas foram se fechando e de repente J para de falar. C olha para J e disse: “cadê isso, isso e isso?”.
J responde “não deu tempo de fazer, C. Mas está bem encaminhado, o Rodrigo pode tocar o resto”. C ficou vermelho. Eu olhava para o jardim do lado de fora e pensava pensmentos bonitos, para fugir daquilo…
“J, o que foi que combinamos?”
“C, eu sei o que combinamos, mas não deu tempo, era coisa demais…”
“O…QUE…FOI…QUE…COMBINAMOS?!?!?!”
“Que eu ia fechar tudo. Mas não deu…”
“ENTÃO CADÊ TUDO?!?!?!?!!? ONDE ESTÁ O QUE COMBINAMOS?!?!?”
J era meio bundão, mas todo homem tem seu limite. Naquela hora, tudo que eu queria era um LSD na minha frente, para botar na boca e viajar para longe. J tomou a rédea:
“Primeiro, fale mais baixo. Segundo, deixei a maior parte das coisas encaminhadas, não tem nada que não possa ser terminado internamente na PA”.
“Não me interessa!!! Nós combinamos uma coisa e você não me entregou nada!!!!” – C gritava menos, talvez carregando o próximo estouro.
“Olha C, é impossível que você não tenha um idiota aqui que possa terminar o pouco que eu deixei” – ele não olhou para mim, mas ficou bem claro que o idiota era eu.
“CHEGA!!!” – Viu? Mais um estouro. – “ESSA REUNIÃO ACABOU!! VAI EMBORA, QUE NÃO TENHO MAIS NADA PARA FALAR COM VOCÊ!!!”
Antes de C dizer “você”, perdão, “VOCÊ!!!”, eu já estava voando para a minha sala, que ficava nos fundos da casa-sede da PA. Arrumando minhas coisas, ouvi gritos.
No vizinho? Só nos meus sonhos.
J e C entraram em um bate-boca, que para mim ainda era na sala de reunião, ao lado e embaixo da minha sala.
Ilusão; era na frente da recepção, uns bons 20 metros à frente. Só para dar idéia do volume. Quando cheguei na frente da empresa, vi J no primeiro andar e C no alto das escadas que davam para sua sala. A conversa continuou assim:
“CALA A BOCA, NÃO QUERO SABER DE MAIS NADA DE VOCÊ!!! VAI EMBORA!!”
“Não grita comigo; me respeita, que nem funcionário seu sou mais para ficar agüentado esssa má educação!!!”
“ENTÃO VAI EMBORA!!! NÃO TEM CONVERSA COM VOCÊ!!!”
“Nossa, o GRANDE C não tem ninguém para fazer o que eu deixei?!?!?”
Nisso, (o grande) C já tinha ido para sua sala.
J resolveu virar homem na hora errada e gritou:
“ENTÃO O GRANDE C É UM IDIOTA!!!”.
Fiquei bobo. Juro que quase dei uma mijadinha nas calças.
J deu um tapa nas minhas costas. Olhei para ele saindo pela porta de entrada. Ele olhou para mim e fez uma cara de “sou fodão” (e era mesmo), e saiu.
Ouvi um barulho no segundo andar. Quando viro, vejo C descendo as escadas, de 2 em 2 degraus, pulando. Ele passa por mim fazendo ventania. Quando me cai a ficha do porquê ele estava correndo para a porta da firma, corro atrás e o vejo agarrando J pelo colarinho, aos berros:
“SEU FILHO DE UMA PUTA!!! EU VOU ACABAR COM VOCÊ!!! SEU DESGRAÇADO!!! FALA DE NOVO NA MINHA CARA!!!”
Vamos manter o suspense e só situar vocês sobre a localização da PA. Como era sábado à tarde, vocês imaginam que não havia quase ninguém na rua para presenciar a cena, certo?
Errado.
A PA ficava de frente para um cabelereiro, ao lado de outro e próxima de várias lojas de roupas femininas. A rua encheu de gente um 2 minutos depois do ataque verbal e físico de C. Muitas mulheres nem mesmo tiraram o papel alumínio dos cabelos e o algodão dos dedos do pé; saíam dos salões como alienígenas que andavam duro.
Voltando a esse ataque, depois que eu vi que C faria algo drástico (as palavras doces foram um bom indicador), eu fui lá para apartar. Minha natureza é pacífica, mas sempre fui um cara grande. Cheguei lá crente que era só me impor, separar os dois e pronto.
Mas ignorei a força da loucura. C me deu um safanão que me jogou de bunda no chão. A galera vibrou; é provável que eu tenha ouvido um “se fodeu, gordinho”. Nessa hora, liguei o foda-se e fiquei sentado esperando as próximas cenas. Já estava excedendo meu dever.
J deveria me agradecer por ajudá-lo a ganhar uns segundos preciosos, pois L, esposa de C na época, estava no escritório também e saiu depois que meus glúteos beijaram o chão. Um timing horrível. Se depois de 15 minutos de bate-boca e ameaças ela não saiu, que ficasse lá dentro.
De qualquer maneira, ela se aproximou da cena como um domador da jaula do leão, o que me levou a uma conclusão aterradora: não era a primeira vez que C tomava uma atitude dessas. A experiência de L ao lidar com o transe psicótico do marido era claro indicador.
L conversou com C, que largou J. J não era (de todo) imbecil, e correu para o carro, cantando pneu. C correu para a rua (imagina se alguém ficou no caminho), e girou para o carro que fugia:
“EU VOU DESCOBRIR ONDE VOCÊ TRABALHA, SEU FILHA DA PUTA!!!”
L foi buscar C na rua. Eu levantei. Estava doido para buscar minhas coisas e ir embora, então cheguei primeiro na porta. Ela não abria. Era daquelas portas que trancavam quando você batia. Pedi para L a chave, e ela responde: “ihhh, deixei lá dentro”.
Não tive dúvidas: fui para casa. Correndo.






2 respostas Até agora ↓
Samir // Quarta-feira, 5 Setembro , 2007 às 3:47 pm |
Uehauioehiaea!
Muito firme a estória. E a narrativa. Não sei se vale a pena fazer algum comentário sobre esse “tipo de gente”. Mas enfim, acho que é realmente um tipo mais ou menos comum, lamentavelmente. Esse tipo valeu pra entreter. Imagino as outras estórias. Realmente deve merecer um blog só para si.
M.Galvão // Quinta-feira, 6 Setembro , 2007 às 10:23 pm |
Alô, Rodrigo,
Essa é prá rir ou prá chorar?
Abraços,
M.